“A ECOLOGIA, HOJE, DEIXOU DE SER CONSERVADORA. É UMA QUESTÃO SOCIAL”

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Durante a campanha eleitoral de 82, Liszt Vieira, destacou-se pela programação de uma campanha inédita que denunciava a discriminação das minorias (sexual e racial) oprimidas e, principalmente, dos recursos naturais. Uma plataforma que defendia a possibilidade da relação do homem com a natureza a partir de uma relação harmônica entre os homens. A este tipo de visão denominou-se “ecologia política”- menos conservadorista e romântica, e que considera a ecologia uma questão social.

O interesse ecológico do atual deputado estadual não é recente. E no período entre 74 e 80, em que esteve fora do Brasil, exilado, teve contato na França com uma nova linha de pensamento que tem na sociedade industrial a grande culpada pelo atual desequilíbrio do meio ambiente. De volta ao Brasil, reiniciou suas atividades como advogado, deparando-se com “o caso dos posseiros da lagoa de Piratininga”, ameaçados de expulsão em benefício dos construtores de loteamentos locais. O processo até hoje continua na justiça.

– Essa foi a primeira vez que percebi a relação direta entre ecologia e a questão social. O que acontece é que as escrituras de propriedade rezam que a terra vai até o espelho d’água da lagoa. Ora, se você aterra, o espelho d’água vai cada vez mais se afastando e, consequentemente, sua propriedade, aumentando. Mas isso ocorre em vários graus. As fábricas que produzem álcool, a partir da cana-de-açúcar, jogam vinhoto nas águas, matando peixes e expulsando os pescadores.

A questão de defesa dos recursos naturais torna-se, portanto, um problema político. É impossível de ser evitado. A população jamais destrói o cenário natural de vida para todos. É sim, objeto de exploração comercial e de lucro para algumas empresas que destroem o meio ambiente em nome de uma concepção quantitativa de progresso, sem levar em conta a qualidade de vida. E é isso que os ecologistas questionam.
De acordo com o censo de 1950, mais da metade da população do Estado do Rio de Janeiro era rural (avaliada em 52,5 por cento). No último censo, realizado em 80, apenas 8,5 por cento concentravam-se nessa região. “Formam o grupo que foi expulso das terras, engrossando favelas, bairros populares, periferias e baixadas”. Atualmente, sabe-se que quase dois terços da lagoa de Araruama estão ameaçados. Lá, a vida se reproduz nos manguezais, onde os peixes colocam suas ovas. “corre que esses manguezais é que são aterrados para a construção de loteamentos”, continua o deputado, “o que faz parte do processo de expulsão do trabalhador”.

O mesmo acontece na região da lagoa de Maricá que, mesmo sob o decreto de preservação da área, baixado pelo Governador do Estado, sofre ameaças de ser loteada. Mas não é só deste mal que sofre a população rural. Os desmatamentos, até por pequenas empresas, estão sendo feitos indiscriminadamente. As dunas de Cabo Frio, por exemplo, vêm sendo roubadas (de madrugada) por empresas interessadas na areia para construção civil. Em Tucuruí, inicia-se um projeto de destruição da Amazônica em benefício da construção de sete hidrelétricas, que alimentam o projeto Carajás.

– Centenas de habitantes já sofreram as conseqüências do desmatamento da área – quando foi usado altíssimo teor de agrotóxicos – a nível de abortos, doenças de pele e até mortes. Com a possível inundação da represa haverá a liberação de dioxina (agente tóxico), o que irá matar plantas, animais e seres humanos.

Do campo à cidade, o maior agente nocivo é a poluição. “Nos países desenvolvidos só é permitido a uma indústria se instalar a partir da autorização prévia do órgão do meio-ambiente que indaga qual o grau de poluição que ela irá lançar no ar ou na água, e que controle antipoluitivo poderá oferecer. Aqui esse organismo é o último a ser ouvido.” Isso sem contar com os alimentos, agora ricos em agrotóxicos, “sem nenhum controle do Estado sobre a racionalidade do uso dessas substâncias e nem um alerta educacional ao lavrador”.

Em última análise, se a idéia de que a ecologia é uma questão importada da Europa pela classe média, vai por água abaixo quando entrar em pauta a sobrevivência da humanidade no plano nuclear. Em 82, por ocasião campanha, Liszt Vieira organizou manifestações antinucleares em Agra dos Reis, junto a ecologistas, físicos, engenheiros e biólogos, visando alertar a população local dos possíveis perigos a que estariam submetidos. No ano passado, o primeiro acidente foi contornado a tempo, “mas a usina é perigosa não só pela explosão, mas pela emanação de radioatividade. Em Cubatão, famílias de operários vêem os filhos nascer sem cérebro, devido ao alto teor de poluição. Por isso é que a questão da ecologia não pode ser isolada numa torre aonde se declamam poesias à árvores. Estamos ameaçados de uma catástrofe ecológica”.

Presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa, o deputado é encarregado de reunir periodicamente representantes de entidades ecológicas, ocasião onde são recolhidos depoimentos sobre os problemas relativos às diversas áreas, que serão encaminhados ao Governo como sugestões. Além disso, já está concluído um projeto, de sua autoria, que condiciona a expansão de usinas nucleares a uma corrente plebiscitária da população. Um projeto democrático onde a população terá de ser consultada, dizendo se aprova ou não o investimento nesse setor. Bem democrático.

Revista ? – Por Alice Grizza. Setembro de 1984.