Dois caminhos

postado em: Artigos Gerais | 0

LISZT VIEIRA

Para mostrar que o mundo não é uma mercadoria, e que os valores éticos, sociais e culturais devem prevalecer sobre os interesses puramente econômicos, mais de duas mil organizações, com 15 mil delegados provenientes de 131 países, reuniram-se em 27 conferências e mais de 900 seminários e oficinas durante o II Fórum Social Mundial de Porto Alegre.

Desta vez, além de denúncias e análises, iniciou-se um debate construtivo com propostas sobre novas instituições que possam garantir uma governança global democrática, como o tribunal penal mundial alternativo ou o banco solidário mundial. Infelizmente, houve alguma perda pelo excesso de fragmentação e pela ausência de um documento de síntese que contemplasse as principais questões e propostas debatidas, sobre as quais já existe consenso.

Simultaneamente, realizou-se em Nova York o Fórum Econômico Mundial, que congrega os representantes do poder econômico e político, para discutir os destinos da globalização e seus impactos no planeta. Pela primeira vez, a questão social constou, ainda que precariamente, da agenda oficial deste seleto clube dos poderosos da terra.

O processo de globalização vem enfraquecendo os Estados nacionais. Fenômenos e processos econômicos, financeiros, sociais, culturais, tornaram-se globais, ignorando os atributos básicos do Estado-nação. Assim, comunicação eletrônica, capital financeiro, poluição ambiental, migrações, indústria cultural, tráfico de drogas, contrabando de armas, são questões que não podem mais ser resolvidas por um único país. Enquanto a esquerda tradicional vê a globalização apenas como eufemismo para o imperialismo ianque, a nova direita abandona o discurso sobre o interesse nacional para se integrar de forma subordinada ao mercado mundial.

Para fazer frente a essa globalização autoritária, de cunho neoliberal, a sociedade civil se organiza e, nesse processo, também se globaliza. A sociedade civil surge como novo ator no cenário internacional, enfrentando os Estados e as empresas transnacionais.

De Seattle a Gênova, passando pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre, a sociedade civil tem apresentado propostas alternativas à (des)ordem social imposta pelos países dominantes. Surgiu, em todo o mundo, uma cidadania ativa lutando pelo interesse público, por uma sociedade baseada na solidariedade e não na competição, por um desenvolvimento baseado na democracia, justiça social, diversidade cultural e proteção ambiental.

O teólogo católico Teilhard de Chardin disse, certa vez, que, de mil delírios, alguns são proféticos. O Fórum Social Mundial de Porto Alegre vem nos mostrar que o advento de uma sociedade civil global capaz de democratizar a política mundial é a utopia possível neste início do século XXI. E a esperança dos excluídos e deserdados da terra.
LISZT VIEIRA é professor da PUC-RJ.