Eu Compreendo o João…

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O Rio de Janeiro conhece esta frase. Disse-a certa vez Caetano Veloso referindo-se a João Gilberto. Estamos todos acostumados com o temperamento excêntrico e, por vezes, irresponsável, de alguns artistas, a quem olhamos com carinho, talvez por não sermos afetados por tal comportamento. Quando, porém, se trata de assunto de segurança pública, a situação fica mais complicada.
A questão principal em relação ao episódio do apoio financeiro do cineasta João Moreira Salles ao traficante Marcinho VP, é saber se se trata ou não de crime. Diversos juristas já afirmaram publicamente que, no caso, não existe crime.

Se aceitarmos o ponto de vista de que tal atitude não configura crime, o assunto ganha outra dimensão. Por mais indignação que nos cause, do ponto de vista moral e social, ver um cineasta, filho de banqueiro, auxiliando um bandido acusado de homicídio, tráfico de drogas, formação de quadrilha, aliciamento de menores para o crime etc, do ponto de vista jurídico não haveria nada a fazer. É um direito de qualquer um aplicar seu dinheiro como bem entende. Podemos criticar ou lamentar, contrastando tal atitude com outros que ajudam projetos mais nobres ligados à educação, saúde, infância etc.
Podemos também desconfiar da ingenuidade do cineasta em relação ao lado humano do traficante e sua possível recuperação para a sociedade. Afinal, todos sabemos que para filmar numa favela é necessário pagar ao traficante, verdadeiro dono daquele espaço, onde o poder público está ausente.

Mas uma coisa é pagar ao bandido para poder filmar numa favela sob seu controle efetivo; outra, muito diferente, é pagar para que ele escreva o roteiro e mostrar seu ponto de vista face aos crimes que cometeu.
Como ninguém é inteiramente mau, o pior dos bandidos certamente tem um lado humano e provavelmente gosta de seus filhos. Houve carrascos nazistas que à noite tocavam piano e se emocionavam com música clássica, esquecendo o genocídio que praticavam de dia nos campos de concentração da Alemanha nazista. Humano, demasiado humano… Isto nos remeteria a Hannah Arendt que cunhou a expressão banalidade do mal, por ocasião do julgamento de Eichman em Israel.

Se a ação do cineasta João Moreira Salles não constitui crime, não fica claro porque o subsecretário de segurança teria que se preocupar com o assunto. É compreensível e elogiável que defenda um amigo, convencido da correção de seu comportamento, mas isto não é matéria de interesse público. Na posição que ocupa, seria mais prudente não emitir publicamente opinião sobre questão privada tão controversa. O subsecretário Luiz Eduardo Soares talvez tenha pecado por excesso de zelo ao entrar no mérito da questão, quando poderia dizer simplesmente que o assunto não é da alçada da sua secretaria, pois não existe crime.

Aliás, se em vez de cineasta filho de banqueiro, fosse o filho do quitandeiro da favela quem estivesse ajudando financeiramente o traficante foragido da polícia, dificilmente a imprensa se preocuparia com o assunto e, provavelmente, o benfeitor seria processado criminalmente e o caso acabaria anonimamente na Defensoria Pública. A lei só é igual para todos em teoria.

Nem toda lei tem fundamento moral, e nem todo crime é imoral. Os banqueiros cobram 11% de juros por mês no cheque especial quando a inflação por ano é de 8,94 %, segundo o IPCA do IBGE, ou 20,10%, segundo o IGPM, da FGV. Isso é um descalabro moral; é um assalto, mas um assalto legal. Não há dúvida, no caso, por quem ou para quem foi feita a lei ou o regulamento que permite tal absurdo que seria considerado, em qualquer outro país, uma prática criminosa.

Na opinião pública, filho de banqueiro não é visto com simpatia, pois, afinal, mesmo sendo cineasta, não deixa de ser herdeiro do banco. No plano simbólico, herda também a antipatia difusa na sociedade em relação ao banqueiro. Se faz filme bem comportado sobre a pobreza, é aplaudido, mas se ajuda um traficante foragido, a antipatia pode se transformar em repúdio, mesmo que o caso se revista de conotações humanitárias, o que é possível, mas não necessariamente provável.

Esperamos que este episódio não venha enfraquecer o subsecretário Luiz Eduardo Soares que vem realizando um trabalho extraordinário na reformulação da polícia de nosso estado. Pela primeira vez, o Estado do Rio de Janeiro tem uma política de segurança pública. Conseguimos ultrapassar o primitivismo e a corrupção que caracterizaram governos anteriores para contarmos com uma política de segurança profissional, inteligente e digna. E isto devemos a ele e à sua equipe, que vêm travando uma luta da civilização contra a barbárie.

Eu não compreendo o João, mas compreendo o subsecretário Luiz Eduardo Soares, cujo trabalho árduo e competente merece nosso respeito e admiração. Dele, somos todos devedores.
Liszt Vieira
Defensor Público e Professor da PUC/UFF