O Encontro Internacional Rio+5 de 13 a 19 de março, no Rio de Janeiro, é um convite à reflexão a respeito dos graves problemas que se abatem sobre a humanidade e seu planeta.

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Os ecologistas devem fugir da tentação de sacralizar a natureza. E aceitar o destino trágico do homem
Enquanto na natureza reina a diversidade e na vida a desordem, o pensamento ocidental, baseado na razão clássica, busca incessantemente a unidade e a ordem para explicar o mundo. Tal atitude parece remontar a Platão, que inventa a dialética, a arte de questões e respostas, para expulsar da cidade o sofista, para quem só existe o mundo dos fenômenos, o mundo das contradições e dos enganos, das diferenças e das mutações, o mundo dos processos, dos movimentos.

A razão clássica se encerra nos limites do principio da identidade e da não contradição. O pensamento diferencial torna-se marginal ao longo dos séculos, ao negar o mundo das essências onde se localiza a verdade, o mundo dos processos, das mutações, das diferenças. A estabilidade supõe a identidade, enquanto a mutação supões a diferença.

Para a razão clássica, o filósofo é a semelhança ao mundo da identidade, enquanto o sofista é a diferença; o saber só se produz quando fundado na semelhança e na identidade baseada na ordem e no repouso.
A razão clássica tem horror ao movimento. Não pode, portanto, dar conta da diversidade na natureza e da desordem na vida.

Os sistemas teóricos da modernidade, para além das divergências, pretendem todos fazer com que a sociedade humana escape à lógica do sagrado. O sagrado é o sistema teórico e prático pelo qual uma sociedade situa a fonte do seu sentido fora de si mesma. E o modelo das heteronomias e das divisões da sociedade.
Emancipar a ordem social da lógica do sagrado é objetivar o ideal de comunidade imediata e transparente. Foi a tentativa das grandes utopias da modernidade e das filosofias do contrato social, a utopia economista de sociedade de mercado e a utopia socialista.

Mas todas fracassaram.

Os que queriam superar o sagrado acabaram sacralizando a Natureza mecaniscista do século 18, a Razão Universal e a Ciência da História no século 19. E, face ao progresso tecnológico e ao produtivismo capitalista, a natureza ecologicizada neste final do século 20.

A luta ecológica enfrenta freqüentemente o argumento do caráter sagrado de tal ou qual princípio, quando, por exemplo, questiona a irracionalidade absurda dos problemas de transporte ou saúde. Mas ela também só sabe invocar as leis da natureza para defender suas posições. É a lei natural do crescimento exponencial contra a lei natural do equilíbrio ecológico.

Ora, a lei natural não é mais concebida como determinação. O princípio da causalidade foi abalado. As mesmas causas podem produzir efeitos diferentes e causas diferentes podem produzir o mesmo efeito. A teoria subatômica da Física Quântica eliminou ou, pelo menos, relativizou bastante a noção de certeza científica, noção fundamental do racionalismo moderno.

O que reconhecemos como Ordem, tanto no social quanto na natureza, contém uma dose irredutível de indeterminado. A biologia reconheceu o papel criador da contingência e do acaso na emergência e no desenvolvimento dos seres vivos.

Para compreender a autonomia de um ser vivo, é preciso conceder ao acaso um poder criador de organização. A criação se origina na desordem e no caos. O aleatório está presente na organização; a indeterminação está no âmago do que define a ordem. A auto-organização (ou autonomia) resulta de colaboração paradoxal da ordem com o caos.

Num mesmo instante de tempo, existem o caos e a ordem, cujo encontro, produzido pelo acaso, gera outros mundos. Há múltiplos mundo onde a natureza se repete. Mas não mais a repetição platônica do Mesmo, mas a repetição do Outro. A repetição da diferença. Ao contrário da cosmogonia de ambos, caos e ordem, podem coexistir a cada momento e, por obra do acaso, gerar novos fluxos e sistemas. Assim como o Um não suprime o Múltiplo, a necessidade não suprime o acaso, é a sua própria combinação. O acaso torna-se assim uma afirmação.

Para a filosofia do acaso, ou pensamento trágico (seguindo o caminho aberto pelo filósofo francês Clément Rosset), não h[a de uma parte o homem, e de outras forças exteriores ao homem, às quais ele também seria exterior. As forças “exteriores”, “cósmicas”, “naturais”, estão também em nós. Um homem sozinho contra tudo não seria necessariamente trágico. Ele se torna trágico quando o “inimigo” está no interior dele mesmo.
Como ponto de partida, o pensamento trágico define a natureza de forma vaga e negativa: a natureza designa, em todos os casos, a constituição de um ser cuja existência não resulta nem dos efeitos da vontade humana, nem dos efeitos do acaso.

A idéia de acaso dissolve a idéia de natureza e questiona a noção do ser. Há acaso, logo não há natureza (nem homem, nem coisas). Há acaso, logo não há ser – “o que existe” é nada.
Isto é, nada que se possa definir como ser, que possa se oferecer à denominação ou fixação.

“O que existe” é exclusivamente constituído de circunstâncias. Os conjuntos relativamente estáveis que trazem, por exemplo, o nome de homem, pedra ou planta, representam certas sedimentações de circunstâncias que têm por acaso, por um feliz (ou infeliz) concurso, resultado na organização de generalidade casuais e estáveis. Sedimentações que somente a brevidade de uma perspectiva humana permite encarar como generalidade, conjuntos, naturezas.

Assim, “o que existe” apenas existe, mas não constitui um ser.
A ocasião é a tessitura de tudo o que existe: é ela que produz as sensações singulares, jogos de encontros imprevisíveis (localmente e temporalmente) entre um sujeito móvel e um objeto igualmente cambiante.
O pensamento do acaso elimina a idéia de natureza e a substitui pela noção de convenção. O que existe é de ordem não natural, mas convencional. Convenção designa, de modo elementar, o simples fato do encontro.

As leis instituídas pelo homem não são nem mais artificiais, nem mais naturais que as aparentes “leis” da natureza. Elas participam de uma mesma ordem causal, num nível diferente. As leis da natureza são de uma ordem tão institucional quanto as leis estabelecidas pela sociedade. Elas não são provenientes de uma necessidade imaginárias, mas tiveram, também elas, que se instituir graças às circunstâncias, exatamente como as leis sociais.

Para o pensamento do acaso, nada diferencia o natural do artificial.

Como nada é “natural”, a noção de artificialidade perde sua significação. Por outro lado, a recusa da idéia de natureza implica necessariamente a recusa da noção de ser. Nenhum dos seres concebidos e concebíeis são admitidos a título de existência. A noção de ser está excluída da existência.

A natureza é o que não existe. A natureza é um não ser.

O pensamento do acaso traz consigo uma característica trágica: o pavor. Pavor em imaginar que não houve jamais nada “natural” em tudo o que o homem considerou como natureza. Pavor em pensar que tudo o que existe provém do acaso. A idéia do acaso, isto é, de não-natureza, é uma matriz produtora de angústias.

O pensamento trágico chega assim a uma definição de natureza: chama-se natureza uma certa quantidade de elementos que, vistos sob um certo ângulo, e a uma certa distância, podem, em um certo instante, dar a um observador a impressão de constituir um conjunto.

“Natureza” designa sempre, portanto, não um objeto, mas um ponto de vista. Assim, o que se chama impropriamente “idéia” de natureza pertence, pois, não ao domínio das idéias, mas ao domínio do desejo.
Perda, perdição, não-ser, desnaturalização, estado de morte são variações de um mesmo tema fundamental, eu se chama acaso ou trágico. E que designa o caráter impensável – em última instância – do que existe.

O pensamento do acaso não admite, de um modo geral, senão o estatuto da exceção. O que revela o acaso é um “estado de morte”. Um estado de indiferença em relação a tudo o que existe. Nada pode modificar uma natureza, nem muito menos constitui-la.

Mas é preciso distinguir duas formas de indiferença. Duas maneiras contraditórias de ser indiferente. Uma consiste em esperar o acaso com certeza, já que tudo é acaso. A outra em nada esperar, se tudo é acaso. Indiferença da festa oposta à indiferença do tédio.

Tudo depende daquilo que se queira ver aparecer: se é o Ser, o mundo é monótono, pois o ser não sobrevem nunca; se é o acaso, o mundo é uma festa, o acaso sobrevindo sempre.
O mundo da festa é um mundo de exceção. O do tédio é um mundo monótono. Ao trágico do não-ser opõe-se, assim, a tristeza do ser.

Lizt Vieira – Idéias/ENSAIOS JB 14/01/90