O INIMIGO INVISÍVEL

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Liszt Vieira

A guerra no Afeganistão e o desmoronamento do regime talibã deixaram para trás uma questão sem resposta. Os EUA gastaram bilhões de dólares com a guerra nas estrelas e o escudo anti-mísseis que de nada serviram para proteger o cidadão americano. A guerra não veio das estrelas e, provavelmente, não virá. É altamente improvável que os EUA venham a ser atacados por outro país. Mas foi exatamente para esta hipótese que os sucessivos governos da Casa Branca se prepararam. Apesar de atentados terroristas anteriores em seu território, os EUA mostraram despreparo total para enfrentar o terrorismo.

Entre os fatores apontados para explicar esta debilidade, destaca-se a pressão formidável da indústria bélica por verbas astronômicas que alimentam o poder do complexo industrial-militar norteamericano. Os Governos sempre venderam a idéia de que a segurança da nação depende dessa fantástica máquina de guerra capaz de impedir ataques de países inimigos.

Esta visão oculta uma concepção estratégica equivocada. Os EUA permanecem presos à lógica de um paradigma anterior. Desde o Tratado de Westfália, em 1648, o mundo é dividido em Estados nacionais. O processo de globalização em curso rompeu com o predomínio absoluto dessa lógica nacional. Fenômenos e processos econômicos, financeiros, sociais, culturais, ambientais, criminais, comunicão eletrônica etc. tornaram-se imediatamente globais, ignorando os atributos básicos do Estado nação: território, soberania e autonomia. São questões mundiais que não podem mais ser resolvidas por um único país isolado.

Para fazer frente a essa globalização autoritária, a sociedade civil se organiza e, nesse processo, também se globaliza. De Seattle a Gênova, passando pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre, a sociedade civil tem apresentado propostas alternativas à (des)ordem social internacional imposta pelos países dominantes. Nos últimos anos, surgiu, em todo o mundo, uma cidadania ativa lutando pela construção de um espaço público democrático transnacional. Mas surgiram também grupos fundamentalistas isolados que, eventualmente, podem recorrer ao terrorismo.

O mundo ficou chocado com o atentado terrorista em Nova York e Washington. Mais de 5 mil pessoas foram mortas estupidamente. Mas quem se comove com os africanos morrendo de fome, de aids, vitimados em guerras sangrentas manipuladas muitas vezes por países ocidentais? As atrocidades praticadas pelos russos no Afeganistão e pelos americanos no Vietnam constituem verdadeiro terrorismo de Estado. Só no Vietnam morreram cerca de dois milhões de pessoas. E quantos morreram no Timor Leste massacrados pelos paramilitares indonésios? Sabe-se que 130 mil civis iraquianos foram mortos pelos bombardeios americanos na Guerra do Golfo. Os cinco mil mortos pelo terrorismo nos EUA repercutem e nos atingem mais do que milhões de civis mortos em países periféricos.

Calcula-se que os EUA gastariam em um ano 100 bilhões de dólares na guerra do Afeganistão. Para começar a guerra, o Congresso americano aprovou 40 bilhões, cinco vezes mais que o PIB do Afeganistão. Se tivessem investido um quarto dessa verba no desenvolvimento econômico daquele país, talvez nem houvessem sofrido atentado terrorista. Mas prevaleceu a arrogante política isolacionista do Governo Bush que angariou a antipatia do mundo inteiro ao se recusar a assinar inúmeras convenções internacionais (tratado de Kyoto sobre efeito estufa, proibição de discriminação contra as mulheres, proteção do menor, proibição de minas antipessoais, criação do Tribunal Penal Internacional etc.).

Os EUA financiaram os talibãs quando lutavam contra os russos, e Sadam Husseim na guerra contra o Irã. Armaram ontem o inimigo de hoje. Somente agora voltaram atrás e concordaram com a inspeção internacional de armas biológicas. Sempre defenderam as patentes contra os genéricos e a saúde pública. Agora, ameaçaram a Bayer com o genérico do antibiótico contra antraz, cujo preço acabou caindo cerca de 90%! Trata-se de salvar norteamericanos e não os 36 milhões de infectados com HIV, dos quais 24 milhões na África. O bioterrorismo pode provocar pânico. Conseguirão os EUA enfrentar esse inimigo invisível?

Bush chegou a falar em cruzada, a guerra santa dos cristãos contra os muçulmanos na Idade Média. A guerra entre muçulmanos e o Ocidente é tudo o que deseja Bin Laden. Será necessário muita habilidade para não cair na armadilha. Mas a hora é dos falcões. Ao propor supressão de direitos civis, não estariam os EUA dando um tiro no pé?

O Império contra-ataca, o que pode levar a uma possível escalada, como propõe o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Os mísseis “inteligentes” lançados no Afeganistão explodiram bairros residenciais, mataram civis inocentes, atingindo até hospitais, escritórios da ONU e a Cruz Vermelha. A guerra na Ásia central provocou ódio no mundo muçulmano, cerca de 1 bilhão de pessoas. Para compensar, um importante peão foi movido no xadrez geopolítico mundial: o apoio de Tony Blair ao Estado Palestino, com o sinal verde dos EUA.

Há quem veja, além do poderio militar, sinais de declínio do império norteamericano. A crise atual poderá, pelo menos, ajudar a romper o fundamentalismo isolacionista do governo Bush, redefinindo os termos da equação política mundial. É possível que então os americanos possam enfim compreender porque são odiados no resto do mundo. E aceitar que entre o cowboy e o mulá existem outras opções.
Liszt Vieira
Professor da PUC-Rio
Autor de Os Argonautas da Cidadania e Cidadania e Globalização