O Nó da Discórdia

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A coligação nacional de oposição à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso sofreria sério abalo com a decisão do PT do Rio de rejeitar apoio eleitoral ao candidato do PDET a governador, Anthony Garotinho. Rompida a coligação, ficaria mais remota a possibilidade, na eleição presidencial, de um segundo turno, que faria bem à saúde mental do presidente e à saúde política da nação.

Lula havia afirmado, várias vezes, que não seria candidato apenas do PT, mas de uma frente unida de oposição ao governo federal. E, por artes da política, a construção da coligação PT-PDT-PSB-PC do B acabou dependendo do apoio do PT fluminense a Garotinho, em troca do apoio de Brizola a Lula e ao candidato petista a governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra.

A decisão de lançar candidato próprio a governador, ignorando a estratégia nacional do partido, não surpreendeu. A tese da candidatura própria sempre derrotou, no PT fluminense, a proposta de coligação eleitoral com partidos aliados. Na última eleição municipal, pela primeira vez, a esquerda não foi ao segundo turno; apesar disso, o PT considerou-se vitorioso por Ter tido mais votos para prefeito do que o candidato do PBT. Para compreender essa rejeição a alianças eleitorais seria necessário recuar aos anos 80 e, mais ainda, à própria origem do PT.

O debate candidatura própria para perder versus coligação eleitoral para ganhar atravessou os anos 80. São concepções diferentes de partido. Em nome da aliança eleitoral, muitas cabeças rolaram. O Diretório Nacional expulsou os então deputados José Eudes, Aírton soares e Bete Mendes por haverem comparecido ao Colégio Eleitoral para votar contra Maluf para presidente da República. A então deputada Lúcia Arruda e eu próprio quase fomos expulsos do PT por proposta do hoje candidato Vladimir Palmeira. O crime foi haver apoiado Saturnino Braga para prefeito do Rio de Janeiro, em 1985. Lula e Weffort, então presidente e secretário-geral do PT, tiveram que vir pessoalmente ao Rio para impedir a expulsão, que acabou se convertendo em advertência.

O PT perdeu quadros preciosos, como Cunca Bocayúva no Rio e Luiz Antônio Carvalho em São Paulo, em dois caso emblemáticos. Muitos outros, centenas pelo Brasil afora, se afastaram ou foram afastados por entenderem que o PT deveria pautar sua ação buscando os interesses do movimento social. Não deveria preterir possíveis caminhos para melhorar as condições de vida do povo, em favor de caminhos que melhor ajudassem o crescimento do partido. Não deveria pôr o interesse do grupo por cima do partido, nem o interesse do partido acima do povo.

O PT foi criado nos anos finais da ditadura, e, desde o nascedouro, teve certa conotação maniqueísta. As correntes dominantes eram constituídas por sindicalistas, pela esquerda marxista e pelos setores progressistas da Igreja que, em geral, dividiam o mundo entre patrões e trabalhadores, burgueses e proletários ou opressores e oprimidos, respectivamente. Todos concordavam que os trabalhadores, proletários e oprimidos estavam no PT. Logo, quem estava fora do partido eram os patrões, burgueses e opressores. Esta concepção impedia a construção de frentes políticas e alianças eleitorais. Fora do PT, não há salvação.

Claro que o fim da ditadura tornou mais complexa a situação e o PT avançou na difícil arte de fazer política. Mas muitos dirigentes permaneceram fiéis à posição original, como Vladimir Palmeira. Outros, porém, mudaram de posição por razões de conflitos internos ou busca de espaço político. É o caso de alguns petistas egressos do PMDB, como, por exemplo, o ex-vereador Chico Alencar e o deputado Milton Temer, este último defensor entusiasta da tese do “arco de aliança” nos anos 80, quando apoiou ardorosamente Arthur da Távola na convenção do PMDB que acabou escolhendo Jorge Leite candidato a prefeito do Rio em 1985. Nessa época, em São Paulo, José Dirceu, atual presidente do PT, era contra a coligação e, na chapa para a prefeitura, se opôs à indicação pelo PSB do vice de Suplicy, que acabou sendo Erundina, do próprio PT.
Mudou a conjuntura, surgiram novos atores, mas o enredo da novela é o mesmo. É o mesmo debate que dividia o PT nos anos 80: candidatura própria versus aliança eleitoral. Ambas as posições são respeitáveis. A primeira prioriza questões de ordem regional e local. A Segunda prioriza uma aliança nacional. A primeira se preocupa mais em propagandear o programa do partido – sujeito histórico da revolução na tradição leninista – ; a Segunda, em ganhar eleições com uma frente oposicionista para promover transformações sociais. A primeira busca identidade política reforçando o programa do partido – “olhando para o próprio umbigo”, Segunda a crítica de Lula. A segunda busca a identidade com os outros partidos. A primeira posição corre o risco do sectarismo; a Segunda, da diluição.

Identidade como essência ou como relação é prato cheio para filósofos. O que nos interessa aqui é mostrar que esse conflito parece chegar ao ponto de ruptura. Não há como desatar o nó como propostas conciliadoras. Nem com Absurdas comparações como PT de São Paulo. O apoio do PDT a Lula para presidente e a Olívio Dutra, para governador do Rio Grande do Sul, passa pelo apoio do PT do Rio a Garotinho. A coligação nacional das oposições tem como condição de possibilidade o apoio do PT ao PDT no Rio de Janeiro.

Por isso, foi muito estranha a atitude do ex-deputado Vladimir Palmeira, que, depois de afirmar, na convenção do partido, que Brizola e o PDT só trariam perdas e rejeição ao PT, declarou, no dia seguinte, já como candidato, que a coligação PT-PDT era importante e, numa atitude imatura, convidou Garotinho para ser seu vice. A candidatura de Vladimir no Rio colocou a frente nacional das oposições num impasse. A corrente arrebentou no elo mais fraco.

É verdade que o desastre administrativo do segundo governo Brizola não criou condições favoráveis a um apoio petista a Garotinho que, diga-se de passagem, vem de duas administrações bem sucedidas no município de Campos, onde é imbatível. Mas mesmo que Brizola tivesse a imagem de bom administrador, o PT do Rio jamais abriria mão de Ter na cabeça de chapa candidato próprio. Para a esquerda do PT, candidatura própria não é posição política, é dogma.

Mas os votos dos delegados na convenção do PT não se explicam apenas por convicções políticas. Muitos são ou apoiam candidatos nas próximas eleições e entendem que a candidatura própria favorece mais seus interesses eleitorais. Neste caso, falar em interesse nacional ou no povo brasileiro é chover no molhado. O PT é um grande partido e também tem seu lado fisiológico. E, convenhamos, o fato de a vitória de Vladimir no Rio Ter dependido de votação secreta põe em cheque a democracia interna do partido. É inegável, também, que alguns líderes estaduais petistas não pareciam muito tristes em ver o Lula num beco sem saída, talvez em função de passadas lutas internas.

Não se pode esquecer tampouco que Lula e a direção nacional sempre evitaram o confronto político no partido e, durante anos, evitavam vir ao Rio de Janeiro para não se aborrecerem. Mesmo agora, os dirigentes nacionais não vieram ao Rio para defender a proposta de coligação nas bases, limitando-se a costurar essa articulação na cúpula. Quem semeia ventos…

O impasse parece intransponível. São duas estratégias políticas irreconciliáveis, coexistindo no mesmo partido. Qualquer solução conciliadora deixará seqüelas traumáticas. O PT está numa encruzilhada. Terá de definir se é uma federação de partidos regionais autônomos, como nos anos 80, ou se é um partido nacional, como quer ser nos anos 90, principalmente depois da memorável campanha presidencial de Lula em 1989.

Terá, principalmente, que abandonar seu lado doutrinário e corporativista e elaborar uma agenda política contemporânea, que contemple a modernização do Estado e da economia, para melhor atender às necessidades sociais da população, completamente desprezadas pelo atual governo. Para isto, terá, talvez, que ferir na própria carne, rejeitando teses absurdas como “Reforma, só a agrária”, adotada por certos setores da CUT e da esquerda petista, tradicionalmente encastelados em posições anacrônicas.

Para chegar ao século 21, o PT terá que desatar o nó do século 19.

Ex-deputado estadual do PT-RJ, Liszt Vieira é professor de sociologia na PUC – Rio. Atualmente, é pesquisador-visitante na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.
Jornal do Brasil – Política – 11/05/1998.