Por uma ecologia aberta

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Desmoronaram os regimes, sistemas e ideologias que, durante décadas, sustentaram nossas crenças e valores. As armas teóricas de que se valiam os oprimidos para enfrentar a opressão do capital tornaram-se obsoletas. A esquerda e os movimentos populares mergulham em perplexidade ou limitam-se a repetir chavões que não convencem mais ninguém, porque passam ao largo de questões essenciais. A crise do mundo capitalista e socialista, a decadência da sociedade patriarcal, a destruição ecológica que ameaça o planeta nos desafiam a buscar novos modos de vida e de pensamento.

Já faz algum tempo, os que entendem a democracia como forma de existência social e não apenas como regime político vinham defendendo a democratização do poder político e econômico, o fortalecimento dos órgãos representativos da sociedade civil, a democratização dos meios de comunicação, a criação de instrumentos de contra-poder e atenção especial à ecologia, questão social que se tornou explosiva nos anos 80.
A realidade confirmou a lucidez dessas preocupações, que acabaram se tornando bandeiras na campanha presidencial de 1989, embora não tenham sido incorporadas à prática cotidiana dos partidos. O próprio movimento ecológico limitou-se a uma perspectiva puramente ambiental, e apenas seus setores mais conscientes articulam a questão ecológica à social. Contudo, esta visão é ainda muito estreita, incapaz de oferecer alternativas. Hoje é preciso ir muito mais além.

É preciso encontrar um novo modo de viver em sociedades onde as transformações tecnológicas e científicas se processaram à custa de uma degradação social e cultural. As crescentes mecanização, automação e informatização tendem a liberar uma quantidade cada vez maior de tempo de trabalho. Isto não precisa significar, como tem ocorrido, o desemprego, a marginalidade, a solidão, a angústia, a neurose. Pode, ao contrário, abrir caminho à cultura, à criação, à pesquisa, à reinvenção do meio ambiente e ao enriquecimento dos modo de vida e sensibilidade.

A crise da sociedade contemporânea só poderá ser enfrentada com uma revolução política, social, cultural, a partir de uma articulação teórico-política entre as três ecologias: a do meio ambiente, a das relações sociais e a das idéias. Esta revolução deverá reorientar a produção dos bens materiais e simbólicos. Deverá se processar não apenas nas relações de força visíveis em grande escalar (reformas de cúpula, planos de governo, partidos, sindicatos), mas também nos domínios moleculares da sensibilidade, inteligência e desejo, ao nível da sida cotidiana.

Os mecanismos de dominação não se manifestam apenas nas estruturas de produção de bens e serviços, mas também nas estruturas de produção de signos e subjetividade, através da mídia, da publicidade, etc.
Tão decisivas quanto as relações econômicas são as relações da subjetividade, que as sustentam. O poder repressivo é introjetado pelos oprimidos e muitas vezes os partido e sindicatos de trabalhadores reproduzem os mesmo modelos autoritários que bloqueiam a liberdade de expressão e inovação. Este é um problema-chave que a ecologia social e mental deverá enfrentar.

O capitalismo, hoje, estendeu o seu domínio sobre o conjunto da vida econômica, social e cultural do planeta, incorporando-se à subjetividade e ao inconsciente das pessoas. Por isso, não é mais possível fazer-lhe oposição somente “do exterior”, mediante as praticas sindicais e políticas tradicionais. Devemos enfrentar seu domínio na vida cotidiana individual, nas relações domésticas de vizinhança, éticas. Para isto, em vez de um consenso mediocrizante, é preciso cultivar o dissenso e a produção singular de existência que a pasteurização capitalista tenta impedir.

É necessário uma ecologia com uma visão transversalizante, abrangendo elementos ambientais, sociais e mentais. A ecologia ambiental apenas antecipou a ecologia generalizada que preconizamos. Ela impõe a reavaliação da finalidade do trabalho e das atividades humanas em função de critérios diferentes dos de rendimento e lucro. Exige a democratização dos meios de comunicação, a serem reapropriados por grupos autônomos e representativos da sociedade civil: o fim do monopólio da produção de sentidos e valores. Supõe também iniciativas de desobediência civil como a Rádio e a TV livres, ou “piratas”. Impõe um questionamento radical das práticas e da subjetividade, incluindo-se aí as sociedades do chamado socialismo real, que acabam de desintegrar-se na Europa Oriental.

Não propomos um modelo de sociedade pronto para usar, mas sim a produção de novos sistemas d valores através de novas práticas sociais, estéticas, ético-políticas, novas práticas de si em relação ao outro. Tudo isso permeia as urgências conjunturais.

A história humana sobre o planeta não é mais teleguiada por Deus, pela Ciência, pela Razão, ou pelas leis da História. Ela nos faz reencontrar o sentido grego da palavra “planeta”: astro errante.

Resta saber se, despojado de verdades que não mais devem ser encontradas, mas sim criadas, o ser humano pode se constituir livremente, olhando o mundo como obra aberta, como um artista cuja obra maior será transformar sua própria vida em obra de arte.

Liszt Vieira – Presidente do Instituto de Ecologia e Desenvolvimento