Identidade e Globalização

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Editora: Record
Ano: 2009

 


 

SINOPSE

 

APRESENTAÇÃO

A questão da identidade tornou-se um dos principais temas de reflexão política e sociológica da atualidade. Uma série de fenômenos contribui para a rediscussão e a possível recodificação do tema da identidade. Razões de índole econômica, política e, inclusive, filosófica, propiciam solo fértil para a retomada atual deste tema.

No domínio da economia, os processos de globalização, sob a hegemonia do capitalismo financeiro, alija os estados nacionais da possibilidade de decisões autônomas em função de seus interesses e necessidades. No plano político, a redefinição político-geográfica da Europa enseja esforços teóricos de compreensão das novas identidades gestadas a partir de fenômenos como, por exemplo, as migrações e o status das minorias étnicas em cada nação. Não há um consenso entre os teóricos acerca do domínio especifico de reflexões que têm como objeto central a questão da identidade.

Debruçaram-se sobre o tema filósofos como Jürgen Habermas, Richard Rorty, Charles Taylor e sociólogos como Manuel Castells, Nestor Canclini, Benedict Anderson, Stuart Hall, Ernest Gellner, Zygmunt Bauman, entre outros. Mas o campo que reúne as principais reflexões contemporâneas do debate acerca da identidade é esta área pouco definida chamada de estudos culturais.

Neste domínio, Stuart Hall, Aijaz Ahmad, Eduardo Said, Homi Bhabha e Nestor Canclini são marcos incontornáveis que lançam suas reflexões a partir de um ponto de vista exterior ao centro dominante da cultura mundial, vale dizer, o horizonte norte-atlântico. O desafio do presente livro que ora apresentamos ao leitor brasileiro é, na esteira desses autores, contribuir para o incipiente debate que tem por foco a problemática da identidade no Brasil.

Abre o livro o texto do embaixador Sergio Paulo Rouanet extraído de uma palestra proferida na Fundação Casa Rui Barbosa[1]. O artigo “Universalismo Concreto e Diversidade Cultural” aponta a dicotomia entre o universal e o particular que se oculta sob o termo diversidade cultural. De um lado, os que só enxergam um igualitarismo abstrato que ignora as diferenças.

De outro, um “diferencialismo” abstrato para o qual só as diferenças existem. O padrão universalista, de origem iluminista, teve enorme influência no Brasil com sua obsessão pela homogeneidade e desprezo pela diferença. A isso se opuseram certas concepções fundadas no relativismo cultural que, em suas versões extremadas, acabaram aceitando violações graves dos direitos humanos como, por exemplo, canibalismo ou mutilação clitoridiana. Ao rejeitar o universalismo igualitarista e o diferencialismo, igualmente abstrato, o autor aponta um terceiro caminho que denominou universalismo concreto.

É possível conviver com todas as diferenças desde que elas respeitem um núcleo mínimo de princípios comuns a todas as culturas. A partir daí, os particularismos culturais podem florescer. Em seguida, o cientista político Sergio Costa assinala em seu texto que os debates da teoria democrática em torno do reconhecimento de diferenças culturais partem, em geral, de uma concepção geográfica e estática de cultura, como se os Estados-nação constituissem a base fundamental de formação das identidades pessoais e coletivas.

Essa visão vem sendo confrontada pela crítica pós-estruturalista, a qual mostra que culturas não são estoques de informação, valores e padrões de conduta reproduzidos indefinidamente, mas articulações identitárias construídas no bojo das relações sociais e políticas. Nesse sentido, políticas multiculturalistas não podem ser vistas como forma de reconhecimento de identidades pré-existentes. Na maior parte das vezes, as chances de reconhecimento é que favorecem a (re-)invenção das identidades que deveriam supostamente “apenas” preservar.

O artigo busca avaliar as conseqüências da crítica pós-estruturalista para as concepções de cultura e para as políticas públicas multiculturalistas. A intenção não é desqualificar o multiculturalismo, mas defender um tipo de multiculturalismo auto-contido, consciente de seu papel na formulação e reformulação das identidades culturais.

Em seu artigo “Morrer pela pátria? Notas sobre identidade nacional”, o sociólogo Liszt Vieira analisa a questão das identidades culturais sufocadas durante o período de formação do Estado nacional. A ênfase na unidade nacional bloqueou o reconhecimento da diversidade cultural. O apelo a morrer pela pátria aparece em quase todos os hinos nacionais da América Latina. A literatura nacional na época do romantismo exaltava a exuberância da natureza e privilegiava os textos de utilidade instrumental à formação nacional.

No caso do Brasil, onde não houve guerra pela independência nacional, o papel da natureza foi sobrevalorizado em detrimento da história e reaparece hoje misturado à consciência ecológica da necessidade de preservação ambiental. O artigo retoma o tema da identidade nacional, agora à luz do processo de globalização, e mostra como o enfraquecimento atual do Estado-nação acarreta o ressurgimento de identidades culturais sufocadas durante o período de formação e consolidação do Estado nacional.

A estrutura básica do Estado nacional criada pelo Tratado de Vestfália em 1648 – territorialidade, soberania e autonomia – está desmoronando, e diversos arranjos de governança global estão sendo institucionalizados. Em decorrência, as noções de pátria e identidade nacional perdem sua dimensão política e tornam-se uma referência puramente cultural. O artigo do professor de filosofia Antonio Maia sustenta a necessidade de uma retomada das discussões acerca da identidade nacional brasileira. Retomada, porque tal tema constituiu elemento central das cogitações da inteligentsia nacional à época do Modernismo e na virada dos anos 50 para os 60 quando do debate sobre o modelo nacional-desenvolvimentista.

Seguindo o mote de Richard Rorty de que precisamos substituir um vocabulário herdado por um novo menos enganoso e mais iluminador, o autor inicia seu artigo com um trabalho de natureza conceitual procurando definir o que é identidade e como se pode atribuir essa idéia a entidades complexas como o conceito de nação. Arrola também os motivos pelas quais a discussão sobre identidade nacional está sendo retomada nos dias de hoje. Uma série de fenômenos contribui para a rediscussão e a possível recodificação do tema da identidade nacional.

A globalização, de dominância econômico-financeira, a construção política da União Européia, a hegemonia cultural estadunidense e a introdução de uma agenda política inspirada no multiculturalismo inspiram reapropriações de tão cara temática. Ainda no plano político, o fim da União Soviética e o recrudescimento dos nacionalismos – em especial em sua forma quase patológica nos etnonacionalismos –chamaram a atenção para as problemáticas contemporâneas político-culturais.

O texto da professora Maria Clara Dias pretende distinguir dois aspectos do debate acerca do nacionalismo: o da legitimidade da parcialidade face aos conacionais e o do direito à autodeterminação nacional. Frente a ambos, a autora defende a tese de que o reconhecimento da identidade nacional pode ser visto, não como uma ameaça, mas uma decorrência espontânea de uma concepção moral universalista.

O principal foco de divergência entre perspectivas nacionalistas e defensores dos direitos humanos parece estar no comprometimento dos primeiros com uma certa parcialidade moral e política frente a indivíduos de uma mesma nação. A demanda universal pelo reconhecimento de direitos básicos correria, assim, o risco de ter seus limites estabelecidos por fronteiras nacionais. Estamos, portanto, diante do primeiro problema colocado pela questão do nacionalismo, a saber: o problema da parcialidade ou do estabelecimento de obrigações especiais para com os conacionais.

É possível legitimar tal parcialidade? Será seu reconhecimento realmente incompatível com uma perspectiva defensora do carater universal de certos direitos humanos? A psicanalista Caterina Koltai aborda a recepção nacional do estrangeiro no mundo globalizado. Seu texto chama a atenção para o destino do estrangeiro em nossa contemporaneidade, uma vez que é bem sabido que a recusa do outro é algo muito mais universal do que gostaríamos de admitir e que tanto as sociedades quanto os humanos precisam enfrentar a questão de como lidar com outros humanos, outras sociedades.

Hoje em dia, com a globalização, que muitos gostariam de ver apenas sob os traços do desenvolvimento do saber, do progresso, da conquista dos direitos humanos, aumentaram as migrações e o estrangeiro, aquele que vem de fora, de um outro lugar, por mais que possa ser bem vindo em certas ocasiões, na maioria das vezes não passa de um ser indesejado, passível de ser repatriado.

Este artigo tenta aprofundar uma das principais características dos novos fluxos migratórios, a de que o estrangeiro deixou de ser o outro absoluto e passou a ser aquele que mora ao lado, na casa vizinha, e é justamente aí que parece residir o problema da recepção do estrangeiro em nossos dias, pois aquilo que ainda parecia tolerável quando o estrangeiro estava longe, vem se tornando insuportável a partir do momento em que ele se aproximou demais, impondo as suas assim chamadas “excentricidades”, o que os transforma na tela na qual os cidadãos acabam projetando o desprezo, o ódio, a inquietude , a ameaça que sentem perante um futuro incerto.

Não por acaso o imigrante ilegal está se tornando em nossos dias o mau objeto sobre o qual se projeta tudo que nos é impossível suportar em nós mesmos. O texto da socióloga Marijane Vieira Lisboa mostra como as florestas brasileiras e a Amazônia em particular sempre desempenharam um importante papel no imaginário brasileiro. Desde o verde da bandeira nacional até as múltiplas menções às florestas brasileiras em nossos hinos nacionais, os brasileiros sempre se orgulharam de suas florestas, o que, no entanto, nunca impediu que estas fossem sistematicamente destruídas, como foi o caso do quase completo desaparecimento da Mata Atlântica, reduzida a 7% da sua área anterior à chegada dos portugueses.

A Floresta Amazônica e o rio Amazonas, por suas dimensões extraordinárias, continuam sendo motivo de orgulho nacional. Em íntima relação com este orgulho nacional estariam as teorias conspiratórias que falam de planos de potências estrangeiras para “internacionalizar” a Floresta Amazônica, roubando-nos seus recursos biológicos e hídricos. No entanto, quem efetivamente vem destruindo a Floresta Amazônica a passos acelerados são a pecuária extensiva e a monocultura da soja, ambas incentivadas diretamente por créditos e órgãos públicos, enquanto os povos indígenas e populações tradicionais, que exploram a floresta de forma sustentável, carecem do devido apoio e proteção. A função identitária da Amazônia no imaginário brasileiro encobre, portanto, os reais conflitos sociais que dilaceram o ambiente amazônico.

Em seu artigo “Identidade, Globalização e Secularização”, a socióloga Maria das Dores Campos Machado parte da difusão das expressões religiosas brasileiras em terras argentinas para repensar os efeitos das forças globalizadoras, especialmente do grande desenvolvimento das tecnologias de transporte e de informação, nas religiões e no processo de construção das identidades confessionais na América Latina.

Neste sentido, a autora demonstra que, a despeito das tendências comuns de declínio do catolicismo, de fluxos de grupos confessionais, e da difusão de movimentos New Age, são múltiplas as formas de se viver e representar as experiências religiosas nas diferentes sociedades nacionais.

Corroborando a tese da assimetria da globalização cultural, a autora argumenta ainda que, embora a América Latina conte com uma elite econômica e intelectual que circula pelos centros culturais do mundo, assim como movimentos sociais transnacionais e acesso às últimas tecnologias de comunicação, elementos que favorecem as tendências de secularização das instituições sociais e de subjetivização dos códigos de crenças, o ritmo e o alcance dessas tendências variam em função de fatores como: a composição étnica, as relações entre os Estados e a Igreja Católica, o acesso à educação formal, a cultura política, e o grau de institucionalização da sociedade civil de cada país.

O presente livro reúne, assim, textos de diversos autores que abordam ângulos diferentes da problemática da identidade, em tempos de globalização, sob o impacto da grande crise que abala o mundo neste final da primeira década do século XXI. Ao organizar o livro, nosso propósito foi contribuir para o debate e a reflexão sobre o tema da identidade no Brasil.

[1] Agradecemos à pesquisadora Rachel Valença, da Fundação Casa Rui Barbosa, pela cessão do texto.

 

SUMÁRIO

em atualização