Liszt Vieira | Escritor

Conto Distópico nº 1: Se o inominável ganhar

02/09/2018

A brigada juvenil foi formada para seguir os ensinamentos do grande líder. Em cada bairro, reunia cerca de dez jovens dispostos a qualquer tipo de ação para levar à prática as recomendações do chefe supremo.

A primeira ação foi invadir uma livraria. O líder do grupo tinha na mão uma lista de livros que deviam ser suprimidos. Entre eles, a República, de Platão (coisa pra vagabundo ler), a Utopia, de Thomas Morus (coisa de comunista), obras de diversos filósofos como Hegel, Marx, Espinoza, Foucault e muitos outros. Havia também uma longa lista de livros cujos títulos falavam em sociedade, social, popular, democracia, comunidade etc.

Ordem não se discute. Apreenderam os livros, levaram para a rua onde foram devidamente queimados numa grande fogueira.

Missão cumprida, a tropa foi mobilizada para nova ação. Tratava-se agora de dar uma lição em perigosos socialistas, professores que passavam idéias subversivas aos alunos de ensino médio. O líder da brigada desembolsou outra lista com nomes e endereços de três professores a serem disciplinados. Na saída da escola, encontraram o primeiro da lista que reagiu e foi severamente espancado. Os outros não foram encontrados. A polícia foi chamada, mas fez vista grossa. Não queria contrariar o grande líder que havia prometido aumento de salário para os policiais.

No domingo, várias brigadas, de diversos bairros, se juntaram para uma marcha patriótica. O pelotão da frente desfraldava a bandeira nacional e todos cantavam canções patrióticas, em formação militar e gritando Viva o Brasil! Três brigadistas, fazendo o papel de segurança, obrigavam os transeuntes a parar em sinal de respeito. Um senhor idoso não obedeceu e foi devidamente castigado: teve de se ajoelhar até a tropa terminar de passar.

Outras ações vieram depois. Sequestraram uma mulher, acusada de fazer aborto, e rasparam-lhe o cabelo, em plena via pública. A polícia nada fazia, eram novos tempos, o grande líder era contra direitos humanos que só servia para proteger bandidos. A polícia só aparecia para reprimir manifestações de defesa de direitos, ameaçados de supressão pelo novo regime. O Judiciário, cioso de seus privilégios, nada dizia, e se antes condenava sem provas, agora limitava-se a dizer nos autos que não havia provas.

O desemprego aumentava e os protestos, quando havia, eram duramente reprimidos. Enquanto isso, o guru econômico do grande líder anunciava que ia privatizar tudo, em favor das multinacionais, e subir os juros para aumentar o lucro dos bancos e das grandes empresas financeiras que iriam investir e criar empregos. Mas, em plena era do capital improdutivo, ninguém investia na produção, o capital financeiro dominava o mercado e não criava riqueza nem emprego. Os poupadores tornaram-se rentistas, em sua maioria. O mercado e a grande imprensa apoiavam o regime ou evitavam críticas.

Todos tinham direito a possuir armas para defesa pessoal. Alguns guardavam em casa, mas a maioria levava pra rua. Afinal, o maior número dos assaltos ocorre na rua. Em pouco tempo, os conflitos interpessoais, como choques no trânsito, paqueras audaciosas, brigas nas filas, por exemplo, passaram a ser resolvidos a bala. Muita gente encontrou a morte por causa de pequenos conflitos. A rua virou faroeste. O grande líder sorria. Como não aceita direitos humanos, aplaudia essas mortes. Tem muita gente no mundo, dizia, deixa morrer.

Os índios foram expulsos de suas terras e florestas, agora entregues à devastação pelo agronegócio. Os gays foram encarcerados em campos de concentração para cura e reabilitação. Os negros quilombolas foram proibidos de procriar. Os imigrantes, expulsos. Cinemas e teatros foram invadidos, acusados de passar filmes subversivos e peças suspeitas. Antigos presos políticos foram caçados. E as mulheres, oficialmente, passaram a ganhar menos do que os homens.

O Brasil saiu da ONU, rompeu com todos os acordos de defesa dos direitos humanos e de proteção ao trabalho e ao meio ambiente. O presidente Trump aplaudiu o novo regime que não encontra barreiras na Justiça como ocorre nos EUA. E disse que mandaria tropas para esmagar a rebelião que irrompeu e ameaçava desencadear uma guerra civil no país.