Liszt Vieira | Escritor

O diálogo secreto do capitão com o juiz, ou Enfim, a verdade aparece

Pode-se enganar todos algum tempo, ou alguns todo o tempo.
Mas não se pode enganar todos todo o tempo (Abraham Lincoln)

 

04/11/2018

 

O juiz Sergio Moro, chamado de “Soldado” por Bolsonaro (UOL, 1/11), abandonou, enfim, a roupagem da aparência e revelou sua essência. 

O diálogo abaixo, embora imaginário, reflete o verdadeiro sentido da realidade dos fatos. Afinal, “num acesso de sinceridade, Bolsonaro reconheceu que a atuação do juiz o ajudou a crescer politicamente” (O Globo, 2/11).


1) Capitão Candidato – Sr. Juiz, se o senhor prender meu rival, que lidera as pesquisas de intenção de voto,  eu me elejo presidente.


2) Juiz Soldado – Sr. Candidato, não tenho provas para prender seu rival.


3) Capitão Candidato – Não tem provas? Se vira, você é juiz, sabe como condenar as pessoas, com ou sem provas. Você garante a segunda instância?


4) Juiz Soldado – Garanto. Eles odeiam Lula tanto quanto nós. E o que eu ganho com isso?


5) Capitão Candidato – Eu lhe nomeio Ministro da Justiça e Segurança, e depois Ministro do Supremo Tribunal Federal. Ou então abro caminho para sua candidatura à presidência da república.


6) Juiz Soldado – Acordo feito. Deixa comigo.

 

O Juiz Soldado já afirmou que, para ele, Caixa 2 é pior que corrupção. Agora, terá como colega o Ministro Chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que admitiu ter recebido Caixa 2 da JBS. Como o Capitão Candidato não foi a nenhum debate, ficamos sem saber porque ele foi membro durante 20 anos do partido do Maluf, o PP, e nunca criticou corrupção. O PP foi o partido mais investigado na Lava Jato, é de longe o mais corrupto, e também o partido que mais cresceu na Câmara.  O próprio Capitão eleito já apareceu numa lista de propina de Furnas, o que foi evidentemente negado.

Tudo isso, na Europa, seria um escândalo. No Brasil, a ética já foi para o espaço. Os liberais fecham os olhos para a supressão de liberdades e direitos. Uma raríssima exceção denuncia o “Judiciário Com Partido” (Folha, 2/11). E juristas reconhecem a “ação política desse Juiz, o viés político de sua atuação” (El País, 1/11).’

Hoje, as árvores da floresta não caminham, como na tragédia Macbeth, de Shakespeare. Elas estão petrificadas e aterrorizadas. Mas em pouco tempo caminharão, o fascismo no poder rapidamente mostra suas garras e diz ao que veio.

Também em pouco tempo, os pobres e a classe média vão sentir na pele os efeitos da política econômica neoliberal escondida na campanha. Lembrando Hegel, o tempo é o senhor da razão.