Nem Prisão, Nem Exílio

Decifra-me ou Te Devoro   29/10/2018   Antes de ser preso e até mesmo depois, Lula liderava as pesquisas de intenção de voto para presidente. Pouco antes da eleição de primeiro turno, Bolsonaro disparou na frente. O que explica esse deslocamento de votos do candidato de um partido de esquerda para um candidato de extrema direita? Essa pergunta é importante. Primeiro, porque esses votos foram talvez o fiel da balança que garantiu a vitória do candidato de extrema direita. Segundo, porque essa pergunta envolve uma questão que vem sendo negligenciada pelos analistas políticos e pelas ciências sociais. Essa massa de votos deslocados da esquerda para a extrema direita não estaria a indicar um elemento messiânico no voto a líderes carismáticos que tem sido ignorado pelas análises eleitorais? São votos sem conteúdo político, sem referência programática, sem ideologia. Trata-se provavelmente de um contingente de eleitores que buscam um salvador da pátria, um líder messiânico, um Pai que vai impor a Ordem e garantir os valores conservadores por detrás de slogans como Pátria e Família. É uma hipótese a ser pensada para compreender a votação desses eleitores, em geral de baixa renda e escolaridade, que transferiram seus votos de Lula para Bolsonaro. Outra questão a ser melhor analisada é a comparação entre a Lava Jato no Brasil e seu modelo inspirador, a Operação Mãos Limpas na Itália. Lá, o combate não foi só contra a corrupção dos políticos, foi também contra a Máfia. Houve desvios e parcialidades, mas no Brasil o viés político-partidário foi muito maior. A Lava Jato protegeu os Juízes e os políticos corruptos do PSDB. Os primeiros, em muitos casos, continuam vendendo sentenças Brasil afora. Os segundos, com raríssimas exceções, não foram processados pela Justiça. E as milícias, versão brasileira da máfia, não foram incomodadas, nem mesmo pela intervenção militar no Rio de Janeiro que só cuidou do tráfico de drogas, deixando no ar uma suspeita de cumplicidade com a ação criminosa das milícias que agora, com a eleição de seu candidato, vai certamente se fortalecer. Um exemplo notável da parcialidade da Lava Jato foi a condenação, sem provas, do ex-presidente Lula, que afrontou a consciência jurídica do país e será considerado pela História como um estudo de caso de Justiça de Exceção. E, como agravante, o país viu estarrecido a decisão espantosa da Justiça de violar a liberdade de expressão e liberdade de imprensa ao proibir Lula de dar a entrevista solicitada pelo jornal Folha de São Paulo. É interessante também comparar os resultados políticos da Operação Mãos Limpas e da Lava Jato. Na Itália, a ação da Mãos Limpas desembocou na eleição de Berlusconi, um político de direita, dono de canais de TV, de estilo histriônico e imoral, segundo os padrões dominantes. No Brasil, a Lava Jato desembocou na eleição de Bolsonaro, um capitão afastado do Exército por indisciplina e desequilíbrio psico-emocional, de ideias fascistas, um adepto da violência bruta como solução para tudo, um medíocre que nada fez em 27 anos como deputado, um ignorante truculento que fugiu dos debates porque não tem nada a propor. Sua ameaça de mandar seus opositores, chamados de “marginais vermelhos”, para a prisão ou exílio, é uma bravata digna de seu herói Pinochet, admirador de Hitler, que matou milhares de pessoas no Chile. Se quiser governar dentro das regras democráticas, o candidato de extrema direita terá de fazer autocrítica de suas declarações passadas de apoio à tortura, à guerra civil para matar 30 mil pessoas, de seus comentários misóginos, homofóbicos, racistas, machistas etc. Sem esquecer de pedir desculpas ao ex-presidente Fernando Henrique, a quem ameaçou matar. Eleito, querendo ou não, será presidente do país, e não apenas de seus eleitores. Na prática, governará para os agentes econômicos do mercado e para as camadas de alta renda, reforçando mecanismos repressivos autoritários e antidemocráticos. A classe média e principalmente os pobres rapidamente compreenderão que ajudaram a eleger um monstro que irá devorá-los, porque não souberam decifrá-lo. E àqueles 45% do eleitorado que souberam decifrar o monstro, digo que devemos gritar, alto e bom som: Nem Prisão, Nem Exílio. Vamos organizar a resistência democrática, antes que esse monstro destrua o Brasil. Caberá às forças vivas da sociedade civil, além dos partidos, construir uma Frente Democrática Ampla, pluripartidária, para defender a democracia, o Estado de Direito e a justiça social que se encontram em perigo pelas ameaças totalitárias do candidato vencedor.

Um psicopata ameaça o Brasil

23/10/2018 Tradicionalmente, a direita tem 30% do eleitorado. A esquerda tem igualmente 30%, ficando os restantes 40% com o chamado “centro”. Esse “centro” tem um movimento pendular: ora cai para a esquerda, ora para a direita. O PT venceu as eleições com Lula e Dilma porque ganhou os votos desse centro. O desgaste no poder e os interesses contrariados na elite e na classe média, que não gostam de redistribuição de renda para reduzir a desigualdade social, acrescidos dos erros no plano ético e político, sem autocrítica, explicam a enorme rejeição ao PT herdada por Fernando Haddad. Os votos do centro deslocaram-se para a direita. Até aí, não há muita novidade. A novidade é que a direita derreteu por estar comprometida com o sistema político rejeitado pela população e, principalmente, com a corrupção que ela queria atribuir apenas ao PT. Um fato marcante dessa transição foi a eleição do senador Aecio Neves para a presidência do PSDB logo após o escândalo da mala de dinheiro filmada com um assessor. A partir daí, surgiram alternativas ao PSDB, sendo a principal o Partido Novo. O eleitorado de direita, no entanto, deslocou-se em massa para o candidato de extrema direita que apelava a seus instintos mais primitivos. E os liberais, como sempre ocorre na América Latina, abrem mão da liberdade e apoiam ditaduras quando acham que seus interesses econômicos estão ameaçados. Violência, tortura, armas para todos, preconceitos contra mulher, negro e gay, guerra civil para matar 30 mil, fuzilamento dos adversários, um troglodita boçal, com ideias medievais e discurso fascista. Fugiu dos debates porque não tem proposta para governar. Seus eleitores não sabem o que ele vai fazer se ganhar, nem querem saber. A centro direita e a direita republicana que aceitavam o jogo democrático (Marina, Alckmin e outros) foram engolidos pela extrema direita que, nesta eleição, constitui-se como importante força política no Congresso e com forte possibilidade de eleger o presidente da república. Enganaram-se os que vaticinaram que o PT ia desaparecer depois do impeachment. Elegeu a principal bancada no Congresso nesta eleição. Quem desapareceu foi o PSDB, mergulhado em corrupção e no apoio à quadrilha de Temer que hoje governa o Brasil. Se realmente vencer o candidato fascista, os pobres e a baixa classe média irão se arrepender em 6 meses, no máximo em 1 ano. A classe média em geral, no máximo em 2 anos. O neoliberalismo é o governo dos ricos. A chamada “trickle-down economics” fracassou onde foi tentada. Mas a elite financeira se enriqueceu. Em plena era do capital improdutivo, o capital financeiro é o dono do país. Gastar 12 milhões para financiar a indústria de fake news contra o candidato democrata é ninharia. Além da desnacionalização da economia, os brasileiros estão ameaçados de perder direitos e ver destruídos seus valores morais, culturais e sociais. Um psicopata ameaça o Brasil.

A tarefa do momento

Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado (Bertold Brecht)   11/10/2018   Todas as críticas dirigidas ao candidato Bolsonaro procuraram destruir o mito provando que ele é desonesto, incompetente, nunca fez nada, sempre recebeu auxílio moradia tendo casa própria em Brasilia, não entende de nada, nunca contribuiu nem com segurança pública, é misógino, homofóbico, racista, defende a violência com idéias fascistas etc. Na realidade, essas críticas não colaram no candidato que continuou crescendo. Uma das razões para isso é a grande rejeição ao PT. Muitos eleitores mal conhecem ou mesmo desconhecem o candidato, apenas votam contra o PT. O envolvimento com corrupção durante o governo do PT é o argumento utilizado, mas não passa de pretexto. Ninguém bateu panela contra a corrupção do governo Temer. Dito isso, é lamentável que o PT nunca tenha feito autocrítica de seus erros no plano ético e político. Aliás, a esquerda em geral sempre considerou o problema da corrupção como questão secundária da superestrutura política, na contramão do que pensa a sociedade e do que dizia o próprio PT na oposição. No fundo, o apoio ao candidato Bolsonaro se explica mais pelo medo da classe média e da elite com a redistribuição de renda para reduzir a desigualdade social. O temor de ver novamente os pobres se aproximando leva o pequeno burguês a votar em qualquer candidato que garanta, a seus olhos, sua superioridade econômica em relação aos setores de baixa renda. Outro fator importante foi o apoio dos evangélicos e católicos ao candidato fascista. Metade dos evangélicos (48%) e 35% dos católicos votariam em Bolsonaro, segundo pesquisa da DataFolha. Esses números podem ter aumentado na onda final da campanha. Isso se deve provavelmente à sua agenda conservadora em matéria de costumes, principalmente no que se refere à liberdade sexual. Os setores religiosos, em nome da “família”, rejeitam os direitos relacionados à questão da identidade sexual e o direito de a mulher dispor do próprio corpo: homossexualidade, transgênero, aborto etc. O crescimento de Bolsonaro na reta final se deve também à absorção de votos dos outros candidatos de direita que desidrataram. No segundo turno, teremos uma eleição plebiscitária: democracia x ditadura, esquerda x nova (extrema) direita, civilização x barbárie. É o momento e última oportunidade de a esquerda propor uma frente democrática ampla contra o fascismo que, lamentavelmente, não foi feita no primeiro turno. Num olhar retrospectivo, já nas Manifestações de 2013 havia soado o alarme do avanço da direita: eram manifestações confusas, com reivindicações misturadas de direita, centro e esquerda. Mas havia algo em comum: a rejeição do sistema político vigente, do sistema representativo e da institucionalidade.  A esquerda ficou confusa e paralisada. Quem extraiu frutos políticos de 2013 foi a direita que depois ganhou as ruas com a campanha do impeachment. E agora, com Bolsonaro, a direita rompe com a legalidade institucional no discurso, prenúncio do que virá na prática. Se ganhar, o candidato fascista não vai governar com Atos Institucionais, como ocorreu na ditadura militar. Ele já tem o apoio das instituições jurídicas, que lhe foram favoráveis: Ministério Público e Poder Judiciário. A condenação de Lula, sem provas, abriu caminho para Bolsonaro que, se for vencedor, contará com o apoio de boa parte do Legislativo para impor à sociedade a agenda neoliberal liderada pelo capital financeiro: privatizações, supressão  da liberdade e direitos sociais, repressão à cultura,  reformas trabalhistas e da previdência, desnacionalização da economia em favor das empresas multinacionais etc. Sua promessa de acabar com o “ativismo político” anuncia o Estado Policial que pretende implantar. É típico do fascismo impor o medo por não conseguir conviver com a diversidade e diferença de opinião. A repressão às manifestações populares em defesa dos direitos individuais, sociais e culturais, bem como do patrimônio nacional, estará na ordem do dia. Diante disso, a tarefa urgente hoje é construir uma Frente Democrática Antifascista. Cabe a nosso candidato Haddad ir além do discurso lulista e petista. Essa Frente tem de ser Pluripartidária para mobilizar todas as forças democráticas, onde quer que se encontrem, para derrotar a ameaça fascista. E Haddad deveria anunciar que o governo será da Frente, e não apenas do PT. Reduzir a rejeição que, junto com os votos, Haddad herdou de Lula é a grande tarefa do momento.

Os 7 pilares do candidato fascista

05/10/2018 A chamada elite econômica e boa parte da classe média votaram em Collor em 89, com medo de Lula. Arrependeram-se quando Collor fez aquela maluquice de congelar contas bancárias. Depois disso, vieram os governos do PSDB e do PT que, com projetos diferentes, respeitaram contratos e direitos, embora não tenham protegido lideranças rurais assassinadas pelo agronegócio e mineração, nem punido os responsáveis pelos crimes hediondos de tortura e assassinato cometidos pela ditadura militar. Recentemente, essa mesma elite e classe média votaram no Rio no Pastor Crivela para Prefeito, com medo da esquerda. Arrependeram-se, Crivela abandonou a cidade e só cuida dos interesses de sua igreja evangélica. Agora, essa mesma elite e classe média, com medo do PT, vão votar em Bolsonazi que é  muito mais imprevisível do que Collor, com a agravante de ser sociopata e fascista: propõe todo mundo andar armado, apoia tortura, quer  ditadura , fuzilar adversários, romper acordos internacionais de direitos humanos, trabalho e meio ambiente etc. É racista, misógino, homofóbico, sádico e subletrado. Comenta-se, nos bastidores, que os setores “civilizados” do PSDB, com FHC à frente, devem apoiar Haddad no segundo turno. O resto, que é considerável, já abandonou Alckmin para apoiar Bolsonazi, o que mostra que, para eles, o projeto econômico neoliberal, mesmo com ditadura, é mais importante que a democracia. O projeto neoliberal nunca vai ganhar eleição. Por isso, desistiu da direita tradicional e passou a apoiar a extrema direita. O neoliberalismo não ganha eleição porque prejudica os interesses da maioria, transferindo renda dos pobres para os ricos. Deram o golpe com o impeachment, e agora desistiram da direita “civilizada” e passaram a apoiar a extrema direita ditatorial. E a direita “civilizada” vai rachar, uma parte já está apoiando o candidato a Pinochet. Na América Latina, os chamados “liberais” nunca foram democratas. Apoiam a ditadura quando seus interesses econômicos estão ameaçados. O PSDB implodiu. O PT também tendia a implodir com o desgaste do governo Dilma se não tivessem dado o golpe do impeachment e se não houvessem condenado Lula sem provas, transformando-o em vítima e herói para boa parte da população. Isso se contrapõe à grande rejeição do PT que nunca fez autocrítica de seus erros éticos e políticos. Entre esses últimos, não custa lembrar que cinco dos seis ministros do STF que votaram pela prisão de Lula foram nomeados pelo PT, sendo que quatro desses ministros foram nomeados pela ex-presidente Dilma. Muitos de nós pensamos que Bolsonaro ia cair quando começassem a campanha e os debates tendo em vista sua evidente mediocridade e incompetência. Não imaginamos que o ressentimento e o ódio ao PT e à esquerda, e a rejeição a tudo o que leva à redistribuição de renda e redução da desigualdade social, fossem provocar o fortalecimento do candidato fascista. Sua campanha eleitoral conta com o apoio de 7 grandes atores: O Agronegócio e a Mineração, as Igrejas conservadoras, a Imprensa conservadora, a Indústria Armamentista, o Setor Financeiro, o Poder Judiciário e as Forças Armadas. Desses atores, os mais visíveis na campanha são a bancada do boi, bala e bíblia, e o setor financeiro. Ou seja, com Bolsonaro teremos aumento dos conflitos socioambientais no campo, assassinato de lideranças rurais e indígenas, lucro de bilhões para a indústria armamentista e para os bancos, custo das reformas jogado nas costas dos trabalhadores e aposentados, retrocesso moral e político, supressão da liberdade e direitos, repressão à cultura. E, é claro, a desnacionalização da economia. O que está em jogo no segundo turno não é uma disputa de poder dentro do regime democrático. O que está em jogo é a democracia contra a ditadura, a civilização contra a barbárie. E, mais uma vez, os chamados liberais, em sua maioria, vão apoiar a barbárie contra a democracia.

Resenha do livro ”Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel”

07/09/2018   O Brasilianista James Green, professor da Brown University, nos EUA, nos presenteou com a biografia dessa extraordinária figura humana que foi Herbert Daniel. Com o título “Revolucionário e Gay – A Vida Extraordinária de Herbert Daniel”, editora Civilização Brasileira, o professor James Green escreveu um livro baseado em intensa pesquisa de documentos, livros e entrevistas orais para demonstrar o papel pioneiro de Herbert Daniel na luta pela democracia, diversidade e inclusão. Aluno brilhante do quarto ano da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, Daniel fez opção de largar tudo e se dedicar inteiramente à luta armada contra a ditadura militar. Militante de organizações revolucionárias como o COLINA que, juntamente com outros grupos formou a VAR-Palmares, Daniel acabou ingressando junto com o capitão Lamarca e outros companheiros na VPR. Participou do grupo de treinamento de guerrilha no Vale da Ribeira que acabou cercado pelo Exército. Liderado pelo capitão Lamarca, o grupo rompeu o cerco e se dirigiu ao Rio de Janeiro onde organizou o sequestro do embaixador alemão para a libertação de 40 presos políticos, entre os quais o autor dessas linhas. Posteriormente, participou do sequestro do embaixador suiço que libertou 70 presos políticos. Com o desmoronamento das organizações de luta armada, Daniel se recolheu e permaneceu escondido algum tempo numa casa em Niterói. Nunca foi preso. Seus companheiros no exílio viviam preocupados porque sabiam que, se ele fosse preso, seria assassinado pelas ousadas ações de que participou, principalmente os sequestros dos dois embaixadores e o rompimento do cerco no Vale da Ribeira que desmoralizou o Exército. Daniel acabou saindo do país. Morou em Paris e Lisboa, junto com seu companheiro Claudio. No exílio, Herbert Daniel pôde assumir sua homossexualidade que havia reprimido pelo forte preconceito que predominava na esquerda da época. Após rápida passagem por Paris, ele foi morar em Portugal que vivia a abertura da Revolução dos Cravos. Em Lisboa, foi um dos mentores do Programa de Alfabetização e Conscientização do Ministério da Educação, inspirado na filosofia de Paulo Freire. O programa foi um sucesso em várias partes de Portugal, mas acabou suspenso. O Partido Comunista queria inundar o país com uma cartilha feita em Lisboa e o Partido Socialista queria transformar os pontos de atendimento do interior em base de apoio eleitoral. O golpe militar de 25 de novembro de 1975 prende militares de esquerda que tentavam radicalizar o regime, entre os quais o general Otelo Saraiva de Carvalho, e promove mudanças no Governo. Pouco depois, soldados invadiram o apartamento de Daniel e Claudio atrás de armas que não existiam. Em janeiro de 1976, sentindo-se inseguro e havendo perdido o emprego, Herbert Daniel se muda para Paris, onde começou a trabalhar numa boite gay. Ele propôs um debate sobre homossexualidade ao Comitê Brasileiro pela Anistia que reunia os exilados políticos brasileiros em Paris. O Comitê se dividiu, uma parte rejeitou a proposta sob o argumento de que isso não era uma questão política. Para evitar um racha, Daniel levou o debate para o auditório da Casa do Brasil na Cidade Universitária que nunca havia recebido tanta gente para assistir a um debate. Ao retornar ao Brasil, após a Lei da Anistia, Daniel destacou-se na formulação de um programa político que serviu de base à plataforma eleitoral que me elegeu Deputado pelo PT-RJ em 1982. Ele articulou as questões hoje chamadas de “identidade” (então chamadas de “minorias”) com as questões ligadas ao poder político de Estado. Pela primeira vez no Brasil, um programa eleitoral mostrava que o poder não se resume ao aparelho de Estado, mas está presente nas relações sociais entre homens e mulheres, hetero e homossexuais, brancos e negros etc. Lembremos que, na época, agressões a mulher, a negro ou a gay eram toleradas com frases do tipo “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, “no Brasil não há preconceito racial”, “viado tem mesmo de apanhar” etc. Herbert Daniel lançou-se candidato a deputado em 1986. Não foi eleito, mas considerou-se vitorioso pela divulgação de suas ideias. Talvez nem quisesse se eleger e se tornar deputado. Ele era muito mais um pensador do que um operador da política. Com a criação da ABIA – Associação Brasileira de AIDS – pelo seu xará Herbert de Sousa, o famoso Betinho, Herbert Daniel encontrou uma instituição que chegou a dirigir para levar adiante as ideias que vinha desenvolvendo a respeito do combate a AIDS. Com efeito, nos anos 80, Daniel se tornara uma liderança intelectual do movimento gay. A imprensa, na época, chamava AIDS de “doença gay”. Daniel demonstrou, com sua formação intelectual e médica, que a AIDS podia tornar-se uma epidemia atingindo também homens e mulheres heterossexuais, principalmente na população pobre. Aproveitando sua militância no mundo político-partidário e sua liderança no movimento gay, Herbert Daniel escreveu vários livros, entre os quais “Passagem para o Próximo Sonho”, “Meu Corpo Daria um Romance”, entre outros. Essa rica história de vida, que resumimos acima em rápidas pinceladas, nos é apresentada com rigor e informações preciosas pelo professor James Green em sua biografia. Ao analisar, na figura do biografado, um momento histórico de resistência à ditadura militar, um grande mérito do livro é tratar a sexualidade como questão política ao descrever a trajetória desse extraordinário revolucionário e gay chamado Herbert Daniel. Dele, e de seu biógrafo, seremos sempre devedores.

Conto Distópico nº 1: Se o inominável ganhar

02/09/2018 A brigada juvenil foi formada para seguir os ensinamentos do grande líder. Em cada bairro, reunia cerca de dez jovens dispostos a qualquer tipo de ação para levar à prática as recomendações do chefe supremo. A primeira ação foi invadir uma livraria. O líder do grupo tinha na mão uma lista de livros que deviam ser suprimidos. Entre eles, a República, de Platão (coisa pra vagabundo ler), a Utopia, de Thomas Morus (coisa de comunista), obras de diversos filósofos como Hegel, Marx, Espinoza, Foucault e muitos outros. Havia também uma longa lista de livros cujos títulos falavam em sociedade, social, popular, democracia, comunidade etc. Ordem não se discute. Apreenderam os livros, levaram para a rua onde foram devidamente queimados numa grande fogueira. Missão cumprida, a tropa foi mobilizada para nova ação. Tratava-se agora de dar uma lição em perigosos socialistas, professores que passavam idéias subversivas aos alunos de ensino médio. O líder da brigada desembolsou outra lista com nomes e endereços de três professores a serem disciplinados. Na saída da escola, encontraram o primeiro da lista que reagiu e foi severamente espancado. Os outros não foram encontrados. A polícia foi chamada, mas fez vista grossa. Não queria contrariar o grande líder que havia prometido aumento de salário para os policiais. No domingo, várias brigadas, de diversos bairros, se juntaram para uma marcha patriótica. O pelotão da frente desfraldava a bandeira nacional e todos cantavam canções patrióticas, em formação militar e gritando Viva o Brasil! Três brigadistas, fazendo o papel de segurança, obrigavam os transeuntes a parar em sinal de respeito. Um senhor idoso não obedeceu e foi devidamente castigado: teve de se ajoelhar até a tropa terminar de passar. Outras ações vieram depois. Sequestraram uma mulher, acusada de fazer aborto, e rasparam-lhe o cabelo, em plena via pública. A polícia nada fazia, eram novos tempos, o grande líder era contra direitos humanos que só servia para proteger bandidos. A polícia só aparecia para reprimir manifestações de defesa de direitos, ameaçados de supressão pelo novo regime. O Judiciário, cioso de seus privilégios, nada dizia, e se antes condenava sem provas, agora limitava-se a dizer nos autos que não havia provas. O desemprego aumentava e os protestos, quando havia, eram duramente reprimidos. Enquanto isso, o guru econômico do grande líder anunciava que ia privatizar tudo, em favor das multinacionais, e subir os juros para aumentar o lucro dos bancos e das grandes empresas financeiras que iriam investir e criar empregos. Mas, em plena era do capital improdutivo, ninguém investia na produção, o capital financeiro dominava o mercado e não criava riqueza nem emprego. Os poupadores tornaram-se rentistas, em sua maioria. O mercado e a grande imprensa apoiavam o regime ou evitavam críticas. Todos tinham direito a possuir armas para defesa pessoal. Alguns guardavam em casa, mas a maioria levava pra rua. Afinal, o maior número dos assaltos ocorre na rua. Em pouco tempo, os conflitos interpessoais, como choques no trânsito, paqueras audaciosas, brigas nas filas, por exemplo, passaram a ser resolvidos a bala. Muita gente encontrou a morte por causa de pequenos conflitos. A rua virou faroeste. O grande líder sorria. Como não aceita direitos humanos, aplaudia essas mortes. Tem muita gente no mundo, dizia, deixa morrer. Os índios foram expulsos de suas terras e florestas, agora entregues à devastação pelo agronegócio. Os gays foram encarcerados em campos de concentração para cura e reabilitação. Os negros quilombolas foram proibidos de procriar. Os imigrantes, expulsos. Cinemas e teatros foram invadidos, acusados de passar filmes subversivos e peças suspeitas. Antigos presos políticos foram caçados. E as mulheres, oficialmente, passaram a ganhar menos do que os homens. O Brasil saiu da ONU, rompeu com todos os acordos de defesa dos direitos humanos e de proteção ao trabalho e ao meio ambiente. O presidente Trump aplaudiu o novo regime que não encontra barreiras na Justiça como ocorre nos EUA. E disse que mandaria tropas para esmagar a rebelião que irrompeu e ameaçava desencadear uma guerra civil no país.

Lucro para uns, veneno para todos

01/07/2018 Foi aprovada na Comissão Especial da Câmara dos Deputados o projeto de lei 6299/2002, mais conhecido como PL do Veneno, que revoga a Lei de Agrotóxicos de 1989. A bancada ruralista venceu a votação na Comissão, contrariando a opinião científica e técnica de diversos órgãos como o SBPC, ANVISA, Instituto Nacional do Câncer (INCA), IBAMA, Fiocruz, Ministério da Saúde, Ministério Público etc.  Pelo projeto, a aprovação de pesticidas agrotóxicos dependerá apenas do Ministério da Agricultura, dominado pelos ruralistas. O projeto agora irá a Plenário. A decisão da Comissão, com maioria de ruralistas, se choca com o parecer  dos cientistas e com a opinião pública: quase 500 mil pessoas já assinaram petição da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos pela redução do uso de venenos na agricultura. Cerca de 280 organizações da sociedade civil e movimentos sociais também se pronunciaram contra a proposta, alertando que ocorrerão mais contaminações de solos e das águas, mais intoxicações de agricultores, mais veneno para o consumidor, mais dependência das empresas multinacionais que dominam o mercado: só em 2015, as empresas faturaram R$ 32 bilhões com a venda de agrotóxicos. Franciléia Paula de Castro, educadora da FASE no Mato Grosso e integrante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida afirmou: “Enquanto 28 países da Europa revisaram recentemente um agrotóxico que prejudica as abelhas, o Brasil está discutindo um projeto de lei que quer flexibilizar a legislação atual de agrotóxicos”. Ela participou recentemente de audiência sobre o Projeto de Lei 6670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA) e vai no sentido oposto ao PL do Veneno apresentado pelo então senador Blairo Maggi, atual ministro da Agricultura. Durante a atividade, realizada na Câmara dos Deputados no dia 12 de junho, Franciléia Paula criticou  as vantagens dadas ao agronegócio no Brasil, como isenção de impostos, e defendeu a agroecologia como modelo democrático de produção e consumo de alimentos saudáveis (Boletim FASE, Edição n. 47 – 29 de junho de 2018). O Projeto de Lei 6.670/2016 é uma importante frente de combate ao avanço do Pacote do Veneno. A comissão especial já está instalada. O presidente é o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e o relator, Nilto Tatto (PT-SP). Segundo auditoria do Tribunal de Contas da União, o Brasil deixou de arrecadar R$ 9 bilhões no período de 2010 a 2017 somente com a isenção fiscal da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e do PIS/Pasep para o setor de agrotóxicos. Esses tributos têm papel relevante para subsidiar a seguridade social, que inclui as áreas de sau%u001de, educac%u027a%u003o e assistência social. Apenas em São Paulo, o ex-governador Alckmin abriu mão de R$ 1,2 bilhão por ano para incentivar o uso de agrotóxicos. O PL do Veneno permite aprovar agrotóxicos que produzem efeitos teratogênicos, carcinogênicos, mutagênicos, ou seja, produzem má formação fetal, câncer, mutação genética, danos hormonais, distúrbios neurológicos, danos ao aparelho reprodutor, contaminação do meio ambiente. Pesquisas desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Ministério da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz apontam que agrotóxicos podem causar diversas doenças, como problemas neurológicos, motores e mentais, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, puberdade precoce, má formação fetal, aborto, doença de Parkinson, endometriose, atrofia dos testículos e câncer de diversos tipos. A contaminação atinge até leite materno. O Brasil consome agrotóxicos proibidos em outros países. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos. Os ruralistas querem agora eliminar a opinião dos cientistas e técnicos preocupados com a saúde humana. A defesa do lucro está sendo mais forte do que a defesa da vida e da natureza. O mercado não quer ser regulado. Estamos mergulhados em um capitalismo cada vez mais selvagem. Investimentos sociais congelados, veneno nos alimentos liberado, plano de saúde majorado em 10%, “reformas” e privatizações encaminhadas, a cada dia fica mais claro porque o mercado e seus agentes políticos apoiaram o impeachment.

Eleição: uma aposta sábia, talvez provável

11/06/2018 Há algumas semanas, o antropólogo Luiz Eduardo Soares organizou no Rio de Janeiro   uma reunião com convidados da sociedade civil e lideranças dos diversos partidos de oposição. O objetivo era pressionar os partidos visando à unidade em torno de um nome de consenso, pelo menos para Governador do RJ, já que para Presidente isso seria mais difícil. Todos os partidos presentes concordaram em dialogar no sentido da busca de um candidato comum para evitar a fragmentação que leva à vitória da direita. Houve, porém, uma exceção: uma representante do PSOL disse que seu partido não aceita pressão da sociedade. Ou seja, o PSOL prefere ouvir o eco de sua própria voz. Com efeito, pouco depois, o PSOL lançou no Rio seus candidatos próprios a governador e senador, sem diálogo com outros partidos de oposição ou com lideranças da sociedade civil. Essa visão isolacionista me lembra o início do PT quando o lema era “Vote no três, o resto é burguês” (o número do PT na época era três). A mensagem era clara: fora do PT – como antes fora da Igreja – não havia salvação. No plano nacional, relembro aqui um artigo do cientista político Wanderley Guilherme criticando o slogan “Eleição sem Lula é fraude”. Ele alertava para a importância de a esquerda ganhar a eleição, o que é possível, e discordava da rejeição da eleição se Lula não fosse candidato. Outros analistas políticos alertaram para a necessidade de alianças eleitorais sob pena de facilitar a vitória da direita na eleição presidencial. O que deve ser evitado a todo custo é a possibilidade de um segundo turno com a direita disputando com a extrema direita. Isso seria a prorrogação da política antinacional e antissocial do atual governo por mais quatro anos. O Brasil cairia definitivamente nas mãos do capital financeiro improdutivo, dominado pelos bancos e grandes empresas multinacionais. Creio que a tendência do eleitorado de oposição será votar no candidato melhor colocado. Se os partidos não fizerem aliança por cima, os eleitores provavelmente farão voto útil para garantir a presença da oposição no segundo turno. Há quem considere que este candidato será Ciro Gomes. Outros acham que o candidato que Lula vier a apoiar (talvez Haddad, talvez Ciro Gomes, não se sabe) irá ao segundo turno e ganhará a eleição. É cedo para prognósticos. A campanha eleitoral só começa em meados de agosto. Estamos no início da pré-campanha que será praticamente interrompida com a Copa do Mundo entre 14/6 e 15/7. Candidatos que hoje parecem fortes poderão cair muito por falta de tempo de TV no horário eleitoral gratuito ou mesmo por fracassar em debates. Outros poderão subir nas pesquisas. O que me parece importante ressaltar desde já é o perigo de uma vitória da direita que irá suprimir a possibilidade de um projeto nacional, de uma inserção autônoma no mundo globalizado, de um desenvolvimento econômico sustentável com garantia dos direitos sociais e individuais, afastando ainda mais o capital financeiro da obrigação de investir na produção para a criação de riqueza e emprego, e do compromisso com a redução da desigualdade social e da necessidade imperiosa de defesa do meio ambiente. Voltará com força a retórica enganosa da política de “austeridade” que, em nome das “reformas” e do “equilíbrio” das contas públicas, justifica criminosamente o corte das despesas sociais do Estado com educação, saúde, meio ambiente, habitação, transporte, ciência e tecnologia, cultura etc. E poupa os ricos que continuarão pagando, quando pagam, baixos impostos. Acima dos interesses particularistas dos partidos e de seus fiéis seguidores, os eleitores conscientes tenderão a votar no candidato de oposição em condições de chegar ao segundo turno. Isso é apenas uma aposta. Não se trata de uma aposta de Pascal, mas de uma atitude prudente e sábia que, a meu ver, tende provavelmente a ocorrer.

Petróleo e a política de guerra dos EUA

22/05/2018   É praticamente consenso que as reservas de petróleo vão se esgotar em 40 anos, mantido o atual padrão de produção e consumo. Nos EUA, a previsão é de que as reservas se esgotem em 7 anos. O uso de combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão) é o maior responsável pela emissão de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global e ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Entre as consequências, encontram-se a elevação do nível dos mares, submersão das costas, calores intensos e secas mais severas, inundações, precipitações pluviométricas mais fortes, impactos na produção agrícola, redução na produção de alimentos e respectivo aumento de preços. Um aquecimento global acima de 2 graus, como parece ser a tendência, é considerado o teto a partir do qual a sobrevivência da humanidade estará ameaçada pela destruição de recursos naturais. Os eventos climáticos extremos produzem catástrofes e deslocamentos massivos de população, aumentando cada vez mais o número de refugiados. E para a fauna, assim como para a flora, cada grau de aquecimento – e mesmo cada meio grau – é de importância vital. A perda da biodiversidade, que não cessa de agravar-se com a extinção de espécies animais e vegetais, mostra que o homem é o único animal que destrói seu próprio habitat. E lutar contra a mudança climática poderia criar 18 milhões de empregos. A redução das emissões de gases de efeito estufa poderia gerar quatro vezes mais empregos do que o que seria perdido (Le Monde, 18/5/2018). Mas no Brasil, por exemplo, os adoradores de petróleo, à esquerda e à direita, exaltam o pré sal e desprezam investimentos em energias alternativas. Os combustíveis fósseis são recursos limitados e mais cedo ou mais tarde irão se esgotar. O carvão em centenas de anos, o petróleo e o gás em dezenas de anos. Eles estão na base da maioria dos conflitos no mundo. São esclarecedores os dados abaixo sobre as reservas de petróleo. Os gráficos sobre reservas mundiais de petróleo ajudam muito a explicar porque a mídia só se interessa pela falta de democracia nos países que têm petróleo cobiçado pelos EUA, principalmente Irã e Venezuela. As ditaduras aliadas dos EUA, como Arábia Saudita, por exemplo, são em geral ignoradas pela mídia. As turbulências políticas em vários países exportadores de petróleo, principalmente Irã e Venezuela, provocaram nos últimos dias uma alta importante no preço do barril de petróleo. A incerteza política na Venezuela e a retirada norte americana do acordo nuclear com o Irã, com as sanções econômicas subsequentes, fizeram subir o preço do petróleo bruto a cerca de 80 dólares o barril, o que não se via desde 2014. Muitos analistas acreditam que o Governo dos EUA está preparando uma guerra de grande envergadura no Oriente Médio contra o Irã, com o apoio de Israel e Arábia Saudita.  Além do petróleo, tais analistas incluem, entre as motivações, o faturamento da indústria armamentista e a utilização de armas nucleares. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, os EUA gastam em armamento 49 vezes mais do que o Irã. A Arábia Saudita gasta em defesa 5 vezes mais e o pequeno Emirados Árabes Unidos, duas vezes mais. Por outro lado, estima-se que o Irã tenha o maior inventário de mísseis balísticos e capacidade de causar perdas severas às tropas americanas já no início do confronto, para jogar a opinião pública dos EUA contra a guerra. Muitos oficiais americanos já se posicionaram contra uma guerra com o Irã. Apesar da superioridade militar americana, eles sabem que o confronto militar com o Irã levaria à morte de milhares de americanos. E ao isolamento total dos EUA em relação a seus parceiros principais na Europa. Entretanto, Trump e seu Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, apoiam a guerra, que eles percebem como vídeo game, e não como um desastre que levará à morte de milhares de soldados e de civis. Segundo analistas militares, a melhor maneira de ganhar a guerra contra o Irã é não iniciá-la (The Huffington Post, 30/3/2018).  Resta convencer o presidente dos EUA.

Nos idos de 68

09/05/2018 Um vento libertário soprou no mundo no ano de 1968. A referência principal foi e continua sendo o maio de 68 na França, onde duas agendas principais se encontraram, se aliaram e depois se separaram: a agenda libertária e anticapitalista liderada pelos estudantes de Paris, e a agenda reivindicatória, liderada pelo Partido Comunista em nome da classe operária. Na realidade, a revolta dos estudantes não se colocou o objetivo de tomar o poder. Uma enxurrada de desejos combatia todas as formas de poder e autoridade. O melhor exemplo da visão libertária, anarquista, anticapitalista, anticonsumista dos estudantes encontra-se nos grafites e frases pichadas nos muros de Paris em maio de 1968. Seguem alguns exemplos. Abaixo a sociedade de consumo/ As armas da crítica passam pela crítica das armas/ A barricada fecha a rua, mas abre a via/ Ceder um pouco é capitular muito/ Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês/ A economia está ferida, pois que morra!/ O estado é cada um de nós./ A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista/ Eu participo. Tu participas. Ele participa. Nós participamos. Vós participais. Eles lucram/ Os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos/ As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes/ O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão/ Os sindicatos são uns bordéis/ Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século/ Abolição da sociedade de classes. No início de maio, apesar das reticências e mesmo oposição dos comunistas, os estudantes entraram nas fábricas ocupadas conclamando os operários à luta. A CGT acabou convocando greve geral e os operários se juntaram aos estudantes na famosa marcha ocorrida no primeiro dia de trabalho após a violenta Noite das Barricadas na sexta feira 10 de maio. Manifestações gigantescas ocorreram a partir de 13 de maio quando os operários se juntaram aos estudantes em greve. Marcharam lado a lado, mas com palavras de ordem diferentes. Os operários gritavam palavras de ordem reivindicatórias, e os estudantes brandiam slogans libertários: É proibido proibir/O álcool mata. Tomem LSD/ A emancipação do homem será total ou não será/ A imaginação toma o poder/ A insolência é a nova arma revolucionária/ A liberdade do outro estende a minha ao infinito/ A mercadoria é o ópio do povo/ Fim da liberdade aos inimigos da liberdade / Professores, vocês nos fazem envelhecer/ O sonho é realidade./ Só a verdade é revolucionária/ Sejam realistas, exijam o impossível/ A arte está morta, não consumamos o seu cadáver/ Abram as janelas do seu coração/ O discurso é contra revolucionário/ Milionários de todos os países, unam-se, o vento está mudando/ Não tomem o elevador, tomem o poder. Em 1968, o Partido Comunista tinha uma liderança inconteste na classe operária francesa: 44% dos membros do P.C. eram proletários. Muito criticado por ter freado o processo revolucionário então em curso, o P.C. provavelmente sentiu o pulso da classe operária francesa que não estava disposta a fazer revolução. Para os estudantes e a esquerda, a aceitação dos Acordos de Grenelle que pôs fim às greves operárias concedendo um aumento de 35% ao salário mínimo e 10% aos salários em geral, foi uma traição. Segundo diversos analistas, o Partido Comunista não tinha interesse em tomar o poder pela revolução, e essa atitude espelhava o comportamento da classe operária. Acabou pagando alto preço, ao se tornar irrelevante no cenário político francês dos anos 70 em diante. Os fundadores da revista Socialismo ou Barbárie, os filósofos Claude Lefort e Cornelius Castoriadis, divergiram na análise de maio de 68. O primeiro falou em revolta bem sucedida, o segundo em revolução fracassada. Castoriadis foi contundente: afirmou que na França em maio de 1968 o proletariado industrial não era a vanguarda revolucionária da sociedade, mas antes a sua retaguarda. Se o movimento dos estudantes atacou os céus, o que prendeu a sociedade à terra foi a atitude do proletariado, sua passividade em relação à liderança e ao regime, sua inércia, sua indiferença a tudo o que não era reivindicação econômica (1968: When the Communist Party Stopped a French Revolution, M. Abidor,  NY Times, 19/4/2018). Os estudantes também saíram às ruas em outros países. Na Alemanha, por exemplo, o líder estudantil Rudi Dutschke foi baleado na cabeça em uma grande manifestação em Berlim, em abril de 1968. Do outro lado do Atlântico, tivemos no México o massacre de Tlatelolco: 300 estudantes foram assassinado pela Polícia na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco, Cidade do México, em 2/10/1968. Pouco conhecido, mas bastante significativo, foi o movimento estudantil nos EUA agrupado numa frente chamada Students for a Democratic Society – SDS. Reprimido o movimento, um dos grupos se radicalizou e partiu para a luta armada contra o regime político norteamericano. Esse grupo se autodenominou Weatherman que, ao pé da letra, significa homem do tempo, ou seja, meteorologista. O nome veio de uma canção de Bob Dylan: You don’t need a weatherman to know which way the wind is  blowing (Você não precisa de um meteorologista para saber de que lado sopra o vento). De visível inspiração anarquista de contra poder, essa organização, também chamada de Weatherman Underground, se propunha criar um partido clandestino revolucionário para derrubar o governo dos Estados Unidos.  Aliou-se ao  Black Liberation Army e ao Black Panther Party, tendo realizado uma série de atentados a bomba em meados dos anos 1970. No Brasil, os ventos libertários de 68 assumiram diversas formas, todas elas sobredeterminadas pela ditadura militar instalada em 1964. No calendário político, em vez de maio, tivemos, nos idos de março, o assassinato do estudante Edson Luís, alvejado pela Polícia Militar numa manifestação contra o aumento do preço do bandejão no Calabouço, região central do Rio de Janeiro. Em seguida, a grande manifestação dos 100 mil no mês de junho, liderada pelo movimento estudantil e com a participação de intelectuais, artistas, profissionais liberais, funcionários etc. A repressão às manifestações de rua contra a ditadura foi se agravando até a promulgação do AI-5 em dezembro de 1968 que implantou a “ditadura dentro da ditadura”.  As manifestações tornaram-se perigosas e praticamente inviáveis. Nessa encruzilhada política, os ativistas que lutavam contra a

Escalada Autoritária

04/05/2018 Não é novidade, mas nunca é demais ressaltar que o sistema político brasileiro foi esvaziado. Os representantes não representam mais ninguém, ficam encerrados num mundo fechado, defendendo seus privilégios contra a sociedade. A democracia vem sendo derretida num formalismo vazio e o Estado vem sendo dominado pelas forças econômicas a serviço do capital financeiro dominante e do agronegócio exportador de produtos primários. Vivemos num mundo da pós verdade. As pessoas permanecem entrincheiradas em suas opiniões. Se os fatos as desmentem, tanto pior para os fatos. Não estão preocupadas em distinguir verdades e mentiras, fatos e versões. Só aceitam as versões que correspondem às suas opiniões subjetivas. Engolem facilmente fake news e as notícias distorcidas da mídia desde que elas coincidam e fortaleçam suas opiniões prévias. E suas opiniões lhes foram em geral incutidas durante anos pela mídia que defende uma política de “austeridade” que, para equilibrar as contas públicas, corta as despesas do Estado, aumenta a desigualdade social e enriquece ainda mais a elite dominante. Para além da retórica de combate à corrupção, os candidatos conservadores vão todos defender essa política de austeridade ligada aos interesses das empresas multinacionais. E os candidatos progressistas vão defender o trabalhador e a indústria nacional na perspectiva da busca de um projeto nacional para o Brasil. A inserção no mundo globalizado se daria a partir do interesse nacional brasileiro e não a partir dos interesses das empresas multinacionais que querem privatizar o patrimônio nacional para transformá-lo em mercadoria e lucro. É nesse contexto que deve ser analisada a atuação do Judiciário no combate à corrupção no Brasil. Houve ataques às sedes do PT em SP, PR, MG, Ribeirão Preto, Joinville, Goiânia, Instituto Lula, Caravana Lula e, segundo consta, não foram investigados. O ataque recente ao acampamento de apoio a Lula em Curitiba deixou dois feridos, um deles em estado grave. No Rio, as milícias avançam, ocupam territórios, matam quem querem – foi o caso da vereadora Marielle Franco – e os militares da intervenção só se preocupam com o tráfico de drogas nas favelas e com a repressão aos favelados. Enquanto isso, um juiz político condena Lula sabendo que ele nunca teve a propriedade ou posse do tal apartamento da OAS e alegando uma reforma de 1 milhão que nunca existiu, como ficou provado com a filmagem do MTST quando invadiu o apartamento. E o Tribunal de 2a. Instância ainda aumenta a pena de 9 para 12 anos! Desde o início, o Juiz mostrou atitude política quando determinou ilegalmente a condução coercitiva de Lula sem havê-lo previamente convidado a depor, ou quando ordenou e divulgou a ilegal gravação da conversa telefônica de um presidente da república com um ex-presidente. No futuro, quando outras forem as paixões políticas, ninguém vai acreditar que Lula foi condenado por causa de um apartamento que nunca esteve em seu nome e que ele nunca usou. Salta aos olhos que ele foi vítima de perseguição política. Ele será lembrado com respeito, e os juízes que o condenaram serão vistos como instrumento do arbítrio. No Brasil de hoje, vemos Juízes, em todos os níveis, abandonarem a isenção jurídica e decidirem em função de convicções e posições políticas. A prisão do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luis Carlos Cancellier, foi decidida por uma Juíza com base em uma acusação da Polícia Federal sem provas. Até hoje, meses depois de sua trágica morte, nada foi provado.  Os jornalistas que leram as 800 páginas do Relatório da Polícia Federal sobre este caso ressaltaram o “excesso de insinuações e escassez de provas” (Folha de SP, 2/5/2018). A crescente judicialização da política vem junto com a politização do Judiciário, onde grande número de juízes decide com base em suas opiniões, prescindindo de provas. Estão seduzidos pelo arbítrio do autoritarismo que já se faz presente destruindo direitos e impondo pela força a agenda do mercado. As condenações baseadas em convicções, em vez de provas, começam como exceção, depois se “normalizam” e viram regra, tornam-se “naturais”. Quando os direitos fundamentais são desprezados, o Estado de Exceção acaba substituindo a democracia.

Os idos de março: A barbárie chega ao Rio

15/03/2018   O historiador Boris Fausto, historicamente ligado ao PSDB de SP, disse certa vez que o impeachment da ex-presidente Dilma destapou a Caixa de Pandora. O retrocesso social, político, econômico e moral do governo Temer, com apoio da mídia, da maioria do Legislativo e até mesmo do Judiciário, abriu caminho para o retorno dos esquadrões da morte. O retrocesso desemboca na barbárie, como vimos agora, mais uma vez, com o assassinato da vereadora Marielle Franco. Os camponeses e indígenas que lutam por suas terras contra a invasão do agronegócio, das mineradoras, dos pecuaristas e das madeireiras já vêm sendo assassinados há vários anos. No Rio de Janeiro, porém, os policiais corruptos que apoiam o tráfico e ex-policiais que formaram as milícias dominando bairros inteiros da cidade é que são os maiores responsáveis pela violência. Em muitos bairros, os moradores pagam imposto ao Estado e às milícias se quiserem continuar vivos. Enquanto eles atuam livremente, o Exército se preocupa em cadastrar os moradores honestos das favelas onde apenas 0,5% são bandidos. Na Rocinha, por exemplo, com cerca de no mínimo 80 mil habitantes, meio por cento dá 400 bandidos, o que não é pouco. Ou os militares responsáveis pela intervenção resolvem, enfim, atacar os setores corruptos da polícia e as milícias, ou então a violência vai continuar. O Rio não produz arma nem droga. Os fuzis e as drogas entram pelo Galeão, por terra ou mar, mediante propina e vista grossa da polícia. Mas o alvo dos militares nunca é a polícia e sim as famílias pobres da favela. Nunca vi o FORNECEDOR de arma e droga ser preso. Na última intervenção militar, o Exército apreendeu 80 fuzis, o que é ridículo: existem milhares de fuzis na mão dos traficantes e seus agentes. O programa segurança de Nova York, anos atrás, começou com uma limpeza na Polícia. Aqui, em geral atiram e matam jovens e crianças pobres, a maioria inocentes, atingidos por bala perdida ou por engano. E os grandes fornecedores e seus parceiros na Polícia não são incomodados. Segurança pública não se resolve com Exército: soldado é treinado para atirar no inimigo. 99,5% dos moradores de favela são gente honesta. São eles que levam a pior, os traficantes se escondem, os fornecedores nunca são presos.  Vão prender meia dúzia de garotos, poucos fuzis e a mídia vai aplaudir. Isso fortalece um pouco o Governo, anestesia a classe média, poderá ter efeito eleitoral e depois volta tudo como era, com os fornecedores e policiais apoiando o tráfico, como sempre. O retorno à barbárie na cidade do Rio de Janeiro é o grande teste da intervenção. Ou vai repetir as intervenções anteriores, que nada resolveram, ou os militares decidem, pela primeira vez, enfrentar o setor corrupto da Polícia e as milícias.