Brasil: Sertão Sem Lei e Sem Veredas

Por Liszt Vieira 10/6/2022 Há dois grandes Sertões na literatura brasileira. O Sertão de Euclides da Cunha e o Sertão de Guimarães Rosa. O primeiro é o semiárido, a caatinga, onde “a lei está na ponta do fuzil”, na frase de Euclides da Cunha. O sertanejo é bandido, age contra a propriedade e a ordem. Euclides analisa a guerra de Canudos, no século XIX, mas sua visão se aplicaria também aos cangaceiros do século XX no sertão nordestino. O sertão de Guimarães Rosa é o cerrado mineiro, onde mandam os jagunços que não conhecem lei nenhuma, pois ali a lei não chega, não há esfera pública. O que predomina é o mandonismo patriarcal. Mas o jagunço não é bandido, não luta contra a ordem. Ele é uma extensão da propriedade, ligado aos grandes fazendeiros do cerrado. Quem analisa de forma brilhante o Sertão de Guimarães Rosa é o saudoso crítico Antônio Cândido. Tudo isso me veio à mente ao assistir uma aula de José Miguel Wisnik sobre o livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O Wisnik, como sempre, brilhante. Ele compara o sertão de Euclides da Cunha com o sertão de Guimarães Rosa, e cita Antônio Cândido. Mas eu gostaria de desenvolver uma outra relação. Há um outro sertão na cultura brasileira. Um sertão levado ao cinema por Glauber Rocha em seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Glauber cita a famosa profecia de Antônio Conselheiro, no Arraial de Canudos: O Sertão Vai Virar Mar, O Mar Vai Virar Sertão! Canudos, como se sabe, foi massacrado pelo Exército brasileiro em fins do século XIX. Essa frase de Antônio Conselheiro permite várias interpretações. As mais comuns se referem à irrigação ou cheias dos rios que cruzam o Nordeste. No plano simbólico, porém, ela pode ser entendida de outra forma. Em prosseguimento à perspectiva de sertão que encontramos em Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, essa frase de Antônio Conselheiro, brilhantemente aproveitada por Glauber Rocha em seu filme, pode ser entendida como o deslocamento do sertão, onde a lei está na ponta do fuzil, para a cidade, onde há regras, e o deslocamento do mar, que banha as cidades com suas leis, para o sertão dos cangaceiros, na caatinga, ou dos jagunços, no cerrado. Desde o fim do século XIX, na guerra de Canudos, ou dos anos 20 do século passado, que seria a época, segundo alguns autores, do cenário de Grande Sertão: Veredas, o sertão conheceu mudanças significativas. Em muitos lugares, a lei chegou. Quase sempre tortuosa, com a Justiça servindo aos poderosos. Mas a dominação brutal dos cangaceiros nordestinos ou dos jagunços do cerrado mineiro sofreu transformações pela presença do aparelho policial e judicial, por mais violentos e imperfeitos que fossem. E o mandonismo patriarcal dos cangaceiros e jagunços se deslocou para as cidades, onde grupos mafiosos de milicianos passaram a controlar parte do território urbano, cobrando impostos e impondo a violência privada contra a ordem pública. No Rio de Janeiro, por exemplo, e não só, os milicianos controlam hoje metade da cidade. Isso significa uma certa duplicidade do Estado. Além do Estado oficial que, na definição clássica de Max Weber, se caracteriza pelo monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território, temos nas cidades hoje um verdadeiro poder assemelhado ao Estado que usa a violência ilegítima para dominar a população num determinado território. É a violência do mandonismo patriarcal do sertão penetrando nas cidades pela ação das milícias. Vemos assim, que não só o mar virou sertão, o sertão também virou mar, assombrando as cidades com o jaguncismo típico do sertão. Assim como os jagunços do sertão mineiro, ao contrário dos cangaceiros nordestinos, não lutam contra a propriedade e são ligados ao poder dos grandes fazendeiros, os milicianos das cidades são hoje protegidos pelos poderosos e ligados à Polícia. O caso mais notório é o do Rio de Janeiro, onde as milícias são protegidas diretamente pelo Presidente da República! Um exemplo notável nos deu o Interventor Militar na Segurança Pública do Rio de Janeiro no ano de 2018, o general Braga Netto. Ele só atacou os traficantes nas favelas, e ignorou as milícias que continuaram se expandindo e dominando territórios. Alguns desses novos territórios controlados pelas milícias pertenciam antes aos traficantes atacados pela Polícia durante a Intervenção Militar. Quem quiser que acredite em coincidência. Assim, o Presidente do Brasil é o Chefe dos Jagunços. Ele quer destruir o Poder Judiciário, a começar pelo Supremo Tribunal Federal, para tornar-se ditador e implantar seu projeto neofascista abrasileirado, de estilo jaguncista, baseado no mandonismo patriarcal, onde o direito é substituído pelo fuzil e onde prevalecem os costumes do patriarcado temperado com o fundamentalismo evangélico, sempre em choque com os hábitos modernos da vida urbana, mas com apoio de segmentos do mercado e de setores militares. Esse “sistema-jagunço”, como o define Guimarães Rosa, se baseia na violência, no clientelismo, na prevalência do poder privado sobre o público, na supremacia da tradição sobre a institucionalidade. Originalmente, são poderes fundados no latifúndio, nas oligarquias rurais, no patrimonialismo, na ausência do Estado, no mandonismo patriarcal, na lógica da vingança. Quem não é aliado, é inimigo. Enfim, o presidente genocida quer transformar o Brasil num grande sertão, sem lei e sem veredas. Tudo indica, porém, que seu projeto neofascista será derrotado pelo projeto democrático moderno encarnado por Lula, em que pesem as diferenças políticas de seus apoiadores, unidos pela necessidade imperiosa de salvar a democracia da regressão autoritária, já em curso, que visa implantar no Brasil a ordem jaguncista do velho sertão onde a lei está na ponta do fuzil.

Risco de Extinção da Amazônia?

Liszt Vieira 10/5/2022 A Amazônia teve recorde de desmatamento em abril passado, com mais 1.000 km2 derrubados. Dados do Inpe mostram um salto de 74% em relação a abril do ano passado (UOL, 6/5/2022).   Um estudo publicado em 7/3/2022 na revista Nature Climate Change afirma que a Amazônia se aproxima de um ponto em que a devastação será irreversível, ou seja, um “ponto de não retorno” ( Boulton, C.A., Lenton, T.M. & Boers, N. Pronounced loss of Amazon rainforest resilience since the early 2000s. Nat. Clim. Chang. 12, 271–278 (2022). Segundo a pesquisa da Nature Climate Change, a resiliência da floresta amazônica às mudanças do clima e às mudanças no uso da terra é crucial para a biodiversidade, o clima regional e o ciclo global do carbono. O desmatamento e as mudanças climáticas, por meio do aumento da duração da estação seca e da frequência das secas, podem já ter empurrado a Amazônia para perto de um limiar crítico de extinção da floresta tropical. Mais de três quartos da floresta amazônica vêm perdendo resiliência desde o início dos anos 2000, o que sugere uma transição crítica. A resiliência está sendo perdida mais rapidamente em regiões com menos chuvas e em partes da floresta tropical que estão mais próximas da atividade humana. A perda de resiliência significa que a floresta amazônica está arriscada a morrer, o que produzirá profundas implicações para a biodiversidade, armazenamento de carbono e mudanças climáticas em escala global. A pesquisa se concentrou na degradação entre 1991 e 2016. A conclusão é que mais de 75% da floresta vem perdendo poder de se regenerar depois de períodos de perturbação, como secas prolongadas. Até mesmo áreas densas em vegetação têm sofrido. O estudo demonstra que a Amazônia corre sério risco de extinção. A partir de certo nível de desmatamento, a floresta provavelmente perderia a capacidade de se recompor e entraria em autodestruição, sem que nenhuma ação humana pudesse reverter seu destino. Não haveria árvores suficientes para manter o atual regime de chuvas. Mais da metade da atual floresta pode virar um cerrado, com enorme impacto na biodiversidade, no clima, na economia e no modo de vida, e não apenas dentro do Brasil. Originalmente, a floresta ocupava 4 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro. Cerca de 17% já foram desmatados. Estimativas anteriores sugeriam que o “ponto de não retorno” seria alcançado quando se chegasse a 25% de destruição. A pesquisa da Nature Climate Change sugere que talvez o limite esteja mais próximo. As consequências da transformação da floresta em cerrado são aterradoras. O lugar que abriga 15% da biodiversidade da Terra seria palco da extinção de incontáveis espécies. Em vez de absorver CO2, a região passaria a emitir bilhões de toneladas de carbono, pondo em risco as metas globais de redução de emissões. O regime de chuvas no Brasil e países vizinhos seria transformado com a alteração dos “rios voadores”, umidade gerada na Amazônia que circula pela atmosfera. O impacto na agricultura e na pecuária seria devastador. A região sudeste do Brasil, situada na mesma latitude do deserto de Atacama, no Chile, sem o benefício dos “rios voadores”, provenientes da Amazônia, estaria ameaçada de se transformar numa savana e, tendencialmente, num deserto. As consequências seriam catastróficas, como não é difícil imaginar. Um estudo publicado em 24/3/2022 na revista Frontiers in Forests and Global Change, sob o título The Unseen Effects of Deforestation: Biophysical Effects on Climate, assinado por Deborah Lawrence e outros cientistas, demonstra que as florestas tropicais contribuem para diminuir a temperatura global em mais de 1º C. 70% desse efeito se deve ao fato de que essas florestas estocam muito carbono. Com a queima ou desmatamento, um volume enorme de CO2 é liberado, agravando o efeito estufa. Os outros 30% do resfriamento se devem a efeitos biofísicos, como evapotranspiração das plantas. Assim, a Amazônia, que no passado foi equivocadamente chamada de “pulmão do mundo”, pode muito bem ser considerada “ar condicionado do planeta”. Para evitar esse futuro apocalíptico, o desmatamento estimulado pelo governo Bolsonaro precisa ser interrompido. O Brasil já reduziu de forma considerável a destruição da floresta no passado, durante os governos do PT. Nos últimos anos, durante o governo Temer e, principalmente, durante o governo Bolsonaro, houve um grande retrocesso, com aumento considerável das áreas desmatadas. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), publicado em 2/2/2022, o desmatamento na Amazônia cresceu quase 57% durante o governo Bolsonaro. E, nas áreas destruídas no último triênio, as terras indígenas tiveram aumento de 150%, o que equivale a 1.255 km². Os grandes vilões são o agronegócio, a mineração e, principalmente, a pecuária. A cadeia de produção de carne na Amazônia ignora acordos: cai a floresta, cresce o pasto. Segundo o Greenpeace, em 2009, os três maiores frigoríficos que atuam na Amazônia – JBS, Marfrig e Minerva – assinaram junto ao Ministério Público Federal um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e aderiram aos “Critérios Mínimos para operações com gado e produtos bovinos em escala industrial no bioma Amazônia” . Na prática, eles se comprometeram a desenvolver sistemas de monitoramento para excluir de suas listas de fornecedores as fazendas que continuavam desmatando, que usavam mão de obra escrava ou que estivessem invadindo áreas protegidas. Alguns avanços foram notáveis para uma indústria que, até então, nunca havia se responsabilizado pelos crimes ambientais que ocorriam em sua cadeia produtiva. Mas uma pecuária livre de desmatamento ainda é um sonho muito distante. A elite brasileira, em sua cobiça e ignorância, acha que desmatar floresta é “progresso”, é “crescimento econômico”. A maioria dos militares também reza essa ladainha. Só pensam em termos de ocupação territorial. Desconhecem os estudos econômicos que, desde os anos 90 do século passado, demonstraram que a floresta em pé vale mais do que abatida, em termos de produção econômica. Isso sem falar na riqueza da biodiversidade perdida com a destruição da floresta, ou nas enchentes, deslizamentos, secas e geadas provocadas pelas variações de temperatura. Além disso, muitos cientistas já demonstraram que a floresta desmatada libera vírus que

Guerra de Posição e Golpe Híbrido

Liszt Vieira 28/4/2022 Está fora de moda o golpe militar clássico, com tanques na rua tomando o Palácio do Governo e prendendo o Presidente. Pelo menos no Brasil. O golpe de Estado se sofisticou, tornou-se o que se chama “golpe híbrido”. O impeachment da Dilma é um bom exemplo. Foi golpe, ela não cometeu crime nenhum que justificasse o impeachment. Já Bolsonaro cometeu dezenas de crimes e não sofreu impeachment porque se bandeou com armas e bagagens para o Centrão que ganhou na bacia das almas o orçamento secreto. O ex-Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ministro Luís Barroso, convidou um General do Exército para acompanhar os trabalhos do TSE durante o processo eleitoral. O Ministro da Defesa barrou e disse que seria um Almirante quem iria representar as Forças Armadas no TSE. O que era um mero convite, tornou-se representação oficial das Forças Armadas. Ora, em nenhum país democrático do mundo os militares participam do processo eleitoral, a não ser em ditaduras. Não é função de militar dar palpite em eleição. Na realidade, os militares do Governo avançaram uma peça no tabuleiro do xadrez político. Estão travando uma guerra de posição com o objetivo de provocar aos poucos o desmantelamento da democracia e das instituições democráticas. As instituições que ainda funcionam, funcionam mal. Desde seu início, o atual Governo sabota o funcionamento das instituições de saúde, educação, ciência, cultura, meio ambiente, política externa independente, direitos humanos etc. Vem ganhando posições na sua guerra para destruir a democracia e implantar uma ditadura, o sonho dourado do atual Presidente. Para isso, conta com o apoio de seu núcleo duro militar e dos parlamentares do Centrão, com as mãos enlameadas pelas verbas do orçamento secreto. Para enfrentar essa guerra de posição, as organizações populares, os movimentos sociais e os partidos de oposição precisam ter mais agilidade, desenvolver uma guerra de movimentos. Por exemplo, já está na hora de voltar às ruas para protestar contra o perdão dos crimes do deputado bandido Daniel Silveira e contra a inflação nos preços de alimentos e energia que penaliza o povo brasileiro. A democracia é golpeada e se enfraquece a cada dia. No próximo domingo, dia 1 de maio, haverá uma Manifestação às 10 h no Parque do Flamengo (Aterro), altura da rua Silveira Martins, pelo emprego, direitos, democracia e vida. Espero que seja o recomeço das manifestações de rua para fortalecer a luta contra o projeto fascista do atual Governo. Afinal, não podemos cruzar os braços para ficar apenas pagando imposto para garantir o Viagra dos militares…

A Eleição e Seus Desafios

Liszt Vieira 17/4/2022 As pesquisas eleitorais recentes da intenção de votos repetem aproximadamente o resultado das anteriores. Lula ganha confortavelmente no segundo turno, podendo vencer no primeiro por margem apertada. Esta possibilidade tornou-se mais difícil nos últimos meses, o que foi atribuído, entre outros fatores, à liberação de dinheiro público do orçamento secreto para beneficiar parlamentares e seu eleitorado, aos votos recebidos com a desistência do candidato Moro, bem como ao relativo abrandamento da pandemia que causava grande desgaste político a Bolsonaro. Por outro lado, a inflação implacável, principalmente nos preços da energia e alimentos, pesa desfavoravelmente ao candidato Bolsonaro. Mas nem tudo se explica pela economia. O saudoso cientista político Wanderley Guilherme dos Santos dizia que, no Brasil, 30% votam na direita, 30% votam na esquerda, e 40% constituem o eleitorado flutuante. Em 2018, Bolsonaro capturou os votos da direita e da maior parte desse eleitorado flutuante. Agora, em 2022, as pesquisas eleitorais indicam uma perda significativa neste último segmento. Perda bem menor terá no eleitorado de direita que se identifica com sua visão retrógrada de autoritarismo, misoginia, homofobia, machismo, intolerância à diferença e ignorância completa, no que se refere à sobrevivência humana, do papel dos recursos naturais e da natureza, vista apenas como objeto a ser destruído em nome do progresso. Entre as poucas certezas da campanha eleitoral de 2022 encontra-se a polarização entre os dois principais candidatos, uma vez que não prosperaram as diversas tentativas de uma terceira via com um candidato de centro. A candidatura Lula-Alckmin ocupou o centro, da mesma forma que o candidato Bolsonaro, da extrema direita, tende a receber os votos ainda hesitantes da direita tradicional, mas com perdas importantes em relação à eleição de 2018. Temos, assim, uma chapa de centro-esquerda, com apoio do centro, contra uma chapa de extrema direita, com apoio da direita. O fracasso retumbante do governo Bolsonaro, com destruição das instituições e políticas públicas de saúde, educação, ciência, cultura, meio ambiente, política externa etc., aliado aos índices medíocres do PIB, persistência do alto desemprego, uberização do trabalho e inflação fora do controle, levaram à perda de apoio em alguns segmentos do empresariado. E, no que se refere ao sólido apoio militar, também aí há fissuras, face à desmoralização das Forças Armadas pelas ações estapafúrdias e desmandos do atual Governo em diversas áreas, com destaque para a retrógrada atitude anticientífica de sabotagem da vacina, e o fornecimento, com dinheiro público, de cerca de 35 mil comprimidos de Viagra e próteses penianas para os militares. A isso tudo se somam os escândalos da corrupção dos pastores evangélicos que cobravam propina para distribuição das verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, a violência dos madeireiros e mineradores ilegais, o genocídio de indígenas, o avanço ilegal, mas com apoio oficial, dos milicianos nas cidades etc. Diante desse quadro, pode-se afirmar que a polarização Lula x Bolsonaro não será alterada por nenhuma candidatura de terceira via que desempenhará papel secundário. O quadro eleitoral está definido: a luta se dá entre a democracia x ditadura, civilização x barbárie. Caberá às forças democráticas, porém, aproveitar o momento da luta política durante a campanha eleitoral para defender os direitos dos trabalhadores, pisoteados desde o Governo Temer, após o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma. Além disso, lutar pela redução da desigualdade social que aumentou de forma escandalosa nos últimos anos, bem como pelo resgate da soberania nacional. Será necessário, durante a campanha, não deixar dúvidas nem alimentar ilusões. O próximo Governo enfrentará uma grave crise econômica que já se manifesta em todo o mundo. Trata-se do casamento ameaçador da inflação com a recessão, ou seja, a estagnação com inflação, chamada estagflação. No Brasil, este quadro será agravado pela desindustrialização em curso, altos índices de desemprego, desmonte das instituições do Estado, supressão de políticas públicas, privatizações contra o interesse nacional, entre outros fatores. Em 2023, o novo Governo se verá, logo no início, diante de uma encruzilhada. De um lado, as forças políticas e econômicas que defendem o neoliberalismo e sua proposta de concentrar os recursos públicos no mercado e esvaziar o Estado, usando como pretexto os dogmas de ajuste fiscal, teto de gastos e equilíbrio de contas públicas para evitar investimento do Estado na economia, enfim, a tese do Estado mínimo e do Mercado máximo. É importante assinalar que o neoliberalismo fracassou em todo o mundo, mas se mantém predominante no Brasil. Nos EUA, o Governo do presidente Biden vai investir 1 trilhão e 200 bilhões de dólares na economia, principalmente na infraestrutura e tecnologia. Lá nunca existiu Estado mínimo, o Governo americano sempre financiou pesquisas científicas que resultaram em novas tecnologias, em diversas áreas, desde a espacial até a digital. O neoliberalismo conta com o apoio do mercado financeiro, dos grandes investidores nacionais e internacionais, da mídia mainstream e da maioria dos militares. Este caminho levou o Brasil à sua atual situação de país periférico, de grande desigualdade, exportador de produtos primários e commodities. A pobreza e a miséria aumentaram, assim como o número de bilionários. O projeto da industrialização nacional, iniciado por Vargas e retomado pelos governos petistas, foi abandonado após o impeachment da presidente Dilma. Outro caminho é o Estado reassumir seu papel central no planejamento e execução de investimentos públicos, visando a um desenvolvimento socioeconômico sustentável, amparado pela grande riqueza de recursos naturais no Brasil que atualmente estão sendo destruídos de forma predatória para lucro de alguns poucos. É o que se espera do Governo eleito em 2022 que deverá, no plano internacional, adotar uma política externa independente, não mais baseada na vassalagem em relação aos interesses norte-americanos, mas centrada nos interesses nacionais. Antes disso, porém, o Brasil vai enfrentar uma grande crise política. Na campanha eleitoral, os partidos de oposição e o próprio Tribunal Eleitoral não serão mais surpreendidos pela divulgação de dezenas de milhões de fake news pelos robôs, como ocorreu em 2018. E a oposição começou a utilizar melhor as mídias sociais, embora tenha ainda um longo caminho a percorrer. Diante desse novo quadro, Bolsonaro já

A Palavra Cidadão no Brasil é Ofensa?

06/07/2020 Os jornais de segunda 6/6 reproduziram matéria que saiu domingo 5/6 no programa Fantástico, da TV Globo. A bolsonarista Nivea del Maestro, ao lado do marido, Leonardo Barros, atacou um Fiscal da Saúde num bar da Barra da Tijuca, no Rio, e acabou demitida da empresa onde trabalhava. O Fiscal dirigiu-se ao marido chamando-o de Cidadão. Ela se ofendeu e retrucou: “Cidadão, não. Engenheiro Civil, formado, melhor do que você”. Para ela, cidadão é um termo ofensivo. Com efeito, a palavra cidadão iguala todas as pessoas. Na Revolução Francesa, todos se chamavam de cidadão para mostrar que todos eram iguais perante a lei, não havia mais privilégios para a nobreza e o clero. Exatamente porque a palavra cidadão iguala, ela se sentiu ofendida, porque se considera superior. Para ela, a lei só vale para os pobres. Ela, como a maioria das classes média e alta, introjetou e “naturalizou” a enorme e injusta desigualdade que perdura e se agrava na sociedade brasileira. Cidadão implica a ideia de que uma pessoa, desde que nasceu, é um sujeito de direitos. Ao adquirir maioridade, torna-se cidadão de pleno direito. Tudo isso, na teoria. Na prática, muitos não têm seus direitos reconhecidos. Aqui vale a famosa ironia: todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

Depois da pandemia: um novo modo de vida?

03/07/2020 A expansão mundial do capitalismo como sistema dominante mostrou que desmoronaram os regimes, sistemas e ideologias que, durante décadas, sustentaram nossas crenças e valores. As armas teóricas de que se valiam os oprimidos para enfrentar a opressão do capital tornaram-se obsoletas. A esquerda e os movimentos populares mergulharam em perplexidade e muitas vezes limitaram-se a repetir chavões antiquados que passam ao largo de questões essenciais. A crise do mundo capitalista, a decadência da sociedade patriarcal, a destruição ecológica que ameaça o planeta, e a pandemia que se alastrou pelo mundo em 2020, nos desafiam a buscar novos modos de vida e de pensamento. Já faz algum tempo, os que entendem a democracia como forma de existência social e não apenas como regime político vinham defendendo a democratização do poder político e econômico, o fortalecimento dos órgãos representativos da sociedade civil, a democratização dos meios de comunicação, a criação de instrumentos de contrapoder e atenção especial à ecologia, questão social que se tornou explosiva a partir dos anos 80. É preciso encontrar um novo modo de viver em sociedades onde as transformações tecnológicas e científicas se processaram à custa de uma degradação social e cultural. As crescentes mecanização, automação e informatização tendem a liberar uma quantidade cada vez maior de tempo de trabalho. Isto não precisa significar, como tem ocorrido, o desemprego, a marginalidade, a solidão, a angústia, a neurose. Pode, ao contrário, abrir caminho à cultura, à criação, à pesquisa, à reinvenção do meio ambiente e ao enriquecimento dos modos de vida e sensibilidade. A crise da sociedade contemporânea só poderá ser enfrentada com uma revolução política, social, cultural, a partir de uma articulação teórico-política em três planos que constituem as chamadas novas ecologias: a do meio ambiente, a das relações sociais e a das ideias. Esta revolução deverá reorientar a produção dos bens materiais e simbólicos. Deverá se processar não apenas nas relações de força visíveis em grande escala (reformas de cúpula, planos de governo, partidos, sindicatos), mas também nos domínios moleculares da sensibilidade, inteligência e desejo, ao nível da vida cotidiana. Os mecanismos de dominação não se manifestam apenas nas estruturas de produção de bens e serviços, mas também nas estruturas de produção de signos e subjetividade, através da mídia, da publicidade etc. Tão decisivas quanto as relações econômicas são as relações da subjetividade que as sustentam. O poder repressivo é introjetado pelos oprimidos e às vezes os partidos e sindicatos de trabalhadores reproduzem os mesmos modelos autoritários que bloqueiam a liberdade de expressão e inovação. Este é um problema-chave que a ecologia social e mental deverá enfrentar. O capitalismo, hoje, estendeu o seu domínio sobre o conjunto da vida econômica, social e cultural do planeta, incorporando-se à subjetividade e ao inconsciente das pessoas. Por isso, não é mais possível fazer-lhe oposição somente “do exterior”, mediante as práticas sindicais e políticas tradicionais. Devemos enfrentar seu domínio na vida cotidiana individual, nas relações éticas e até nas relações domésticas e de vizinhança. Para isto, em vez de apenas buscar um consenso, é preciso também cultivar o dissenso e a produção singular de existência que a pasteurização capitalista tenta impedir. O que torna singular a fase atual do neoliberalismo é o apoio das massas que são as mais prejudicadas com a política neoliberal. A necropolítica que hoje prevalece no Brasil com o governo Bolsonaro obteve apoio daqueles que vão morrer. Isso é algo novo. A revolta das massas foi capturada, cooptada e deslocada pela revolta das elites. O Estado desvia recursos públicos antes destinados à saúde, educação e toda área social para o mercado financeiro dominado pela minoria de 1% da população, e grande parte da massa popular excluída apoia essa política em nome de uma retórica vazia e ilusória de luta contra o “sistema”. A pandemia de 2020 provocou abalo na ideologia neoliberal que privilegia a rentabilidade econômica em detrimento das necessidades sociais, culturais e ambientais. A prioridade do lucro em relação à saúde e à vida foi questionada em toda a parte. Dependendo da ação política, o neoliberalismo permanecerá em alguns lugares, sofrerá mudanças em outros ou será substituído pela social democracia ou capitalismo de Estado de orientação keynesiana. Para enfrentar a ação do mercado que tentará impor o retorno do neoliberalismo, é necessário ter uma visão política transversal, abrangendo elementos ambientais, sociais e culturais. A ecologia ambiental apenas antecipou a ecologia generalizada do futuro. Ela impõe a reavaliação da finalidade do trabalho e das atividades humanas em função de critérios diferentes dos de rendimento e lucro. Exige a democratização dos meios de comunicação, a serem reapropriados por grupos autônomos e representativos da sociedade civil: o fim do monopólio da produção de sentidos e valores. Supõe também iniciativas de desobediência civil como a Rádio e a TV livres, por exemplo. Após a pandemia, abre-se um período de incertezas. Como bem disse o escritor Edgard Morin, a história humana sobre o planeta não é mais teleguiada por Deus, pela Ciência, pela Razão, ou pelas leis da História. Ela nos faz reencontrar o sentido grego da palavra “planeta”: astro errante. A crise do capitalismo provocada pela pandemia do coronavirus abre um leque de oportunidades nas sociedades de risco em que vivemos. Resta saber se, despojado das verdades impostas pelo sistema dominante, de verdades que não mais devem ser absorvidas ou encontradas, mas sim criadas, o ser humano pode se constituir livremente, libertando-se da “servidão voluntária” e olhando o mundo como obra aberta que pode ser transformado pela ação coletiva.

Paradoxo de Epicuro

30/06/2020 A mãe Alexandra Dougokenski, de 33 anos, admitiu em 27/6/2020 que matou o filho Rafael Mateus Winques, 11 anos, em 15/5 passado, no Rio Grande do Sul, com uma corda de varal quando ele estava acordado no quarto devido à desobediência do garoto. Ela afirmou que estava irritada com o filho porque ele não dormia e ficava jogando no celular. Ela deu dois comprimidos de diazepam ao garoto, mas horas depois pegou o menino jogando no celular novamente e resolveu enforcá-lo. Quando ocorre um crime horroroso, sempre surge alguém para dizer que é sinal do fim do mundo, antigamente não era assim, e por aí vai. Toda época teve seus heróis e criminosos bárbaros. Na Grécia antiga, berço de nossa civilização, as pessoas lotavam o teatro para assistir Medéia, que matou os filhos para se vingar e botar ciúme no marido. E Agamenon sacrificou sua filha Ifigênia pedindo aos deuses que enviassem ventos favoráveis para a frota grega chegar a Troia. A mitologia grega está cheia de crimes horrorosos. Cronos devorava seus filhos. Na mitologia romana, Cronos era Saturno que foi imortalizado num quadro de Goya devorando seu filho. A existência do mal no mundo faz lembrar o Paradoxo de Epicuro. Deus não pode ao mesmo tempo ser bom, onipotente e onisciente. Se existe o mal, e Deus é bom, então ele não pode tudo ou não sabe tudo, porque não evitou o mal. Se ele sabe tudo e pode tudo, e existe o mal, então ele não é bom. São três proposições que se chocam: 1)      Deus é Onibenevolente (absolutamente bondoso). 2)      Deus é Onisciente (tem absoluta ciência de tudo) 3)      Deus é Onipotente (possui poder absoluto e ilimitado) Enquanto onisciente e onipotente, Deus tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente. Enquanto onipotente e onibenevolente, Deus tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente. Enquanto onisciente e onibenevolente, Deus sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente. A mãe Alexandra Dougokenski, de 33 anos, admitiu em 27/6/2020 que matou o filho Rafael Mateus Winques, 11 anos, em 15/5 passado, no Rio Grande do Sul, com uma corda de varal quando ele estava acordado no quarto devido à desobediência do garoto. Ela afirmou que estava irritada com o filho porque ele não dormia e ficava jogando no celular. Ela deu dois comprimidos de diazepam ao garoto, mas horas depois pegou o menino jogando no celular novamente e resolveu enforcá-lo. Quando ocorre um crime horroroso, sempre surge alguém para dizer que é sinal do fim do mundo, antigamente não era assim, e por aí vai. Toda época teve seus heróis e criminosos bárbaros. Na Grécia antiga, berço de nossa civilização, as pessoas lotavam o teatro para assistir Medéia, que matou os filhos para se vingar e botar ciúme no marido. E Agamenon sacrificou sua filha Ifigênia pedindo aos deuses que enviassem ventos favoráveis para a frota grega chegar a Troia. A mitologia grega está cheia de crimes horrorosos. Cronos devorava seus filhos. Na mitologia romana, Cronos era Saturno que foi imortalizado num quadro de Goya devorando seu filho. A existência do mal no mundo faz lembrar o Paradoxo de Epicuro. Deus não pode ao mesmo tempo ser bom, onipotente e onisciente. Se existe o mal, e Deus é bom, então ele não pode tudo ou não sabe tudo, porque não evitou o mal. Se ele sabe tudo e pode tudo, e existe o mal, então ele não é bom. São três proposições que se chocam: 1)      Deus é Onibenevolente (absolutamente bondoso). 2)      Deus é Onisciente (tem absoluta ciência de tudo) 3)      Deus é Onipotente (possui poder absoluto e ilimitado) Enquanto onisciente e onipotente, Deus tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente. Enquanto onipotente e onibenevolente, Deus tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente. Enquanto onisciente e onibenevolente, Deus sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.

Lembrando Hélio Peregrino

26/06/2020 A declaração de Lya Luft de que se arrependeu de ter votado em Bolsonaro provocou um debate acalorado. Muita gente perguntou: como uma pessoa tão culta pode ter votado tão mal? Várias respostas foram dadas. Eu mesmo, no facebook, dei uma explicação de caráter sociológico, admitindo que há várias respostas possíveis. O professor de filosofia e escritor Roberto Romano foi duro na crítica. Um intelectual “apoiar alguém que faz elogio da tortura, despreza as mulheres, odeia os homossexuais, debocha de quilombolas e de indígenas” só pode ser explicado por duas razões. “Ou possui a mesma ideologia assassina, ou é covardemente cúmplice”. Essa declaração da Lya Luft me fez lembrar do Hélio Peregrino nos anos 80, então seu companheiro. Todo sábado à tarde eu, na época deputado, comparecia à varanda da casa do Hélio Peregrino no bairro Jardim Botânico, nos idos de 1985. Ali se reuniam algumas pessoas amigas para discutir e articular propostas políticas, entre elas o ator Osmar Prado, o músico Sergio Ricardo, o psicanalista Carlos Alberto, o professor Pinguelli Rosa e às vezes o Frei Betto. Estávamos às vésperas da eleição municipal e queríamos uma Frente de esquerda para apoiar o candidato Saturnino Braga para prefeito do Rio na legenda do PDT. O PT rejeitou aliança, e sob liderança de Vladimir Palmeira insistiu e lançou candidato próprio sem apoio eleitoral consistente. O candidato era boa pessoa, mas acabou tendo apenas 0,98% dos votos. Organizamos uma dissidência e lançamos a Frente Rio, mobilizando uma parte do PT para apoiar Saturnino, então muito criticado pelos petistas. Hélio Peregrino, fundador do PT, deu apoio resoluto à Frente Rio e à união da esquerda em torno de Saturnino. O tempo passou, Saturnino, anos depois, se filiou ao PSB e posteriormente ao PT, enquanto Vladimir Palmeira saiu do PT e foi para o PSB. Hoje, cerca de 36 anos depois da campanha das Diretas Já, de novo se coloca a proposta de uma Frente Ampla, uma proposta de caráter político como única forma de derrubar Bolsonaro. Mas muita gente na esquerda rejeita essa aliança. A proposta é política, e a rejeição é moral. Quero crer que Hélio Peregrino, se vivo fosse, apoiaria a Frente Democrática contra Bolsonaro. Se vivo estivesse, talvez Lya Luft não precisasse fazer autocrítica, porque possivelmente o ouviria e não teria votado tão mal. Ou será que não?  

Arrependimento “Quae Sera Tamen”

24/06/2020 A escritora e tradutora Lia Luft declarou estar arrependida de ter votado em Bolsonaro. O professor Renato Janine abriu um debate em sua página no Facebook. Saudou a decisão (antes tarde que nunca), mas perguntou: Como é possível uma pessoa tão culta ter votado tão mal? Além da explicação psicanalítica (impulso de morte), há várias outras possíveis. Uma delas é sociológica. Boa parte da classe média rejeita o “igualitarismo” e se assusta quando os pobres melhoram de vida e se aproximam: a empregada doméstica fica mais cara, os aviões ficam lotados, “Congonhas vira uma rodoviária” etc. Em vez de se aproximar dos ricos – como desejam – a ideia de se misturar aos pobres torna-se insuportável.

O Dilema Atual do Neoliberalismo

24/06/2020   Recente artigo na revista Development Economics, em 18 de junho passado, de Jack Copley e Alexis Moraitis, analisa com propriedade o conflito do neoliberalismo, subordinado à lógica do mercado mundial e por vezes obrigado a atender demandas sociais em casos de grandes protestos e manifestações ou, como agora, de pandemia. O texto abaixo busca resumir a mensagem deste artigo no que se refere ao atual dilema do neoliberalismo. A pandemia de coronavírus exigiu que os Estados adotassem medidas sem precedentes para apoiar a economia capitalista mundial. Isso incluiu enormes injeções de liquidez nos mercados financeiros, garantindo o salário dos trabalhadores afastados sob licença e requisitando e coordenando temporariamente parte das atividades do setor privado. No entanto, no ano passado, uma ameaça diferente – não epidemiológica, mas proletária – obrigou os Estados a adotar políticas redistributivas contra suas vontades, embora em menor escala. Do ponto de vista dos levantes atuais contra a violência policial racista, as ruas vazias do confinamento do início de 2020 aparecem como uma breve exceção à tendência mais ampla de manifestações de massa. Em 2019, ruas, avenidas e praças de diferentes partes do mundo foram inundadas por manifestantes que criticaram as políticas em favor dos ricos de seus respectivos governos. A escala, a resistência e a perturbação espetacular dessas explosões populares pressionaram os governos da Ásia Ocidental à Europa e à América Latina a abandonar a chamada austeridade fiscal neoliberal e abraçar com relutância as políticas de estímulo keynesiano. No Chile, por exemplo, na véspera da revolta do outono de 2019, o bilionário presidente conservador  Sebastián Piñera invocou uma metáfora clássica para explicar como ele resistiria à oposição popular ao seu doloroso programa de reformas: “Ulisses se amarrou ao mastro de um navio e colocou pedaços de cera nos ouvidos para evitar cair no canto das sereias”. Menos de um mês depois, ele se libertou de suas amarras, anunciando aumentos no salário mínimo, benefícios de saúde, pensões, subsídios à eletricidade e a reforma da própria constituição do Chile. Existem paralelos claros com o francês Emmanuel Macron, um ex-banqueiro de investimentos que assumiu o poder em 2017 com uma plataforma de disciplina de mercado, e depois cedeu ao peso do movimento Coletes Amarelos e anunciou um pacote de concessões de 17 bilhões de euros. Como devemos entender essas reviravoltas keynesianas de tais governos tipicamente neoliberais em face de protestos em massa e pandemia? Supõe-se que o projeto neoliberal representou o encolhimento da esfera estatal e sua substituição pela lógica fria do mercado. Com efeito, após a crise de 2008, a austeridade rapidamente se restabeleceu. No entanto, muitos afirmaram que o acúmulo mais recente de crises sociais e, agora, a pandemia, vai forçar finalmente os Estados a recuperar o território que haviam cedido ao mercado. Será que o neoliberalismo estaria ameaçado? Por trás dessa questão da morte iminente do neoliberalismo está uma compreensão implícita de Estados e mercados como entidades opostas engajadas em uma luta pelo poder de soma zero. Essa visão lembra o recente debate da globalização travado entre os economistas liberais. Após o colapso do sistema de Bretton Woods na década de 1970 e a rápida globalização das relações econômicas, esses economistas anunciaram um novo ‘mundo sem fronteiras’, no qual o Estado ‘definharia’ sob pressão de fluxos de capital irrestritos. O neoliberalismo foi apresentado como a manifestação política desse fenômeno, pelo qual os ideólogos do livre mercado capturaram as dimensões do poder do Estado com o objetivo de supervisionar a retirada do Estado diante das lógicas de mercado globalizadas. Essa caracterização foi ultrapassada em favor do conceito de “constituição mútua” de Estados e mercados. De acordo com essa abordagem, inspirada em Karl Polanyi, os Estados não intervêm às custas dos mercados, mas os mercados somente existem porque os Estados os reproduzem. Os Estados e mercados são entendidos como constituindo um todo social entrelaçado. Os mecanismos de mercado estão sempre embutidos e sustentados por arranjos específicos de autoridade política, desenho institucional e paradigmas ideológicos. Para essa abordagem, que enfatiza os poderes de criação de mercado por parte dos Estados, a questão de saber se uma intervenção estatal maior sinaliza o fim do neoliberalismo é incoerente. O neoliberalismo nunca implicou o avanço de um mercado autorregulado às custas do Estado – isso era pura mitologia. Em vez disso, ainda segundo essa abordagem, o neoliberalismo denota um padrão particular de relações Estado-mercado, no qual o Estado cria a estrutura para o livre comércio e fiscaliza o funcionamento do mercado. Talvez uma pergunta melhor, então, seja a seguinte: dadas as condições sem precedentes de hoje, que nova constelação político-econômica está surgindo para substituir a neoliberal? De acordo com a tese da constituição mútua, o horizonte de possibilidades é amplo: existem inúmeras combinações potenciais de autoridade estatal e de mercado. Qual combinação prevalecerá é uma questão de política. Em contraste à noção de ‘constituição mútua’, alguns autores propuseram o conceito de alienação de Marx como uma maneira de compreender a dupla face historicamente única do capitalismo, em que a realidade econômica é regulada pelos Estados, mas aparece como uma lógica imposta externamente. Diferentemente das interpretações comuns, a alienação aqui é vista não como uma descrição da sujeição dos trabalhadores à natureza cruel do trabalho capitalista, mas como o domínio objetivo de toda a sociedade pela dinâmica de lucrar ou perecer da competição capitalista. Embora o intercâmbio no mercado seja um processo realizado por indivíduos reais, ele escapa ao controle de agentes sociais cuja sobrevivência econômica agora depende de sua capacidade de produzir de acordo com as normas vigentes de produtividade. São os próprios Estados que dão vida a esse sistema alienado no nível do mercado global. Ao regular suas moedas por meio de sistemas de taxas de câmbio, países individuais permitem uma comparação sistemática dos níveis de produtividade uns dos outros e, ao fazê-lo, dão origem às médias mundiais de produtividade. Uma vez introduzida na rede do comércio internacional, cada economia nacional deve se adaptar constantemente aos padrões do mercado mundial para garantir sua viabilidade. Assim, o poder não

Melhores Filmes

21/06/2020   Um amigo, um pouco angustiado na quarentena, me perguntou quais são os melhores filmes que eu vi. Não tenho a pretensão de dizer que são os melhores, mas posso dizer quais os filmes que mais me impactaram. Muitos filmes ficaram de fora, mas foi o que lembrei num primeiro impulso de antigo frequentador de cinemateca. Em outro dia, talvez mudasse um ou outro filme. Mas foi o que me ocorreu hoje. Segue uma lista por ordem cronológica . Filmes   A Paixão de Joana d’Arc, 1928. de Carl Dreyer. M, O Vampiro de Dusseldorf, 1931, de Fritz Lang. Tempos Modernos, 1936, de Charles Chaplin. A Grande Ilusão, 1937, e A Regra do Jogo, 1939, de Jean Renoir. No Tempo das Diligências, 1939, de John Ford. Cidadão Kane, 1941, de Orson Welles. Casablanca, 1942, de Michael Curtiz. Rashomon, 1950, Os Sete Samurais, 1954, e Ran, 1985, de Akira Kurosawa. La Dolce Vita, 1960, de Federico Fellini. O Leopardo, 1963, Morte em Veneza, 1971, de Luchino Visconti. Beijos Proibidos, 1968, e O Amor em Fuga, 1979, de François Truffaut. Novecento, 1976, de Bernardo Bertolucci. O Ovo da Serpente, 1977, de Ingmar Bergman. Apocalipse Now, 1979, de Francis F. Coppola. Blade Runner, 1982, de Ridley Scott. O Baile, 1983, e La Famiglia, 1987, de Ettore Scola. Ventos da Liberdade, 2006, e Eu, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach. Não satisfeito com essa lista, meu amigo, em atitude sádica, me pediu para escolher um único filme. Sofri um pouco, mas escolhi o filme “M, O Vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang. Esclareço que não é filme de vampiro, é uma tradução infeliz do filme que na Europa se chamou de M, O Maldito. Trata-se de uma obra prima do expressionismo alemão, incrivelmente atual. Obra de gênio. Depois desse filme, Fritz Lang fugiu da Alemanha e foi se asilar nos EUA. Dizem que sua mulher, simpatizante do nazismo, ficou e mudou a cena final do filme, para despolitizar. Nunca consegui confirmar essa informação. De qualquer maneira, o filme é imperdível.  

Pandemia e o meio ambiente

19/06/2020   A atual crise da pandemia está ligada aos problemas de mudança climática e perda de biodiversidade que constituem grave ameaça à nossa saúde e ao equilíbrio do planeta. A crise nos convida a reconsiderar nosso relacionamento com a vida, a nos reconciliar com a natureza, que fornece serviços essenciais à nossa sobrevivência.  Embora a proteção ambiental seja uma questão importante para a sobrevivência da humanidade, os governos ainda não tomaram as decisões necessárias para garantir a sustentabilidade socioambiental. Um retorno aos nossos velhos hábitos não é uma opção. A crise criou uma nova e ampla consciência da interdependência dos países e de nossa dependência dos recursos naturais. É imperioso que os governos e o setor privado sejam capazes de medir isso e imaginar soluções. Para evitar o retorno a uma economia devastadora para o meio ambiente, os países devem levar  em conta as resoluções dos órgãos internacionais de proteção ambiental, como a Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica e a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. 2.2. bilhões de pessoas não têm acesso a água potável, 4,2 bilhões não têm um local seguro para ir ao banheiro e 40% da população mundial não possuem instalações básicas de lavagem das mãos com água e sabão disponíveis em casa. Nas favelas, muitos precisam contar com instalações compartilhadas, como banheiros, por exemplo.  Isso torna praticamente impossível o distanciamento social. 43% das clínicas e centros de saúde não têm instalações para lavagem das mãos: não há água limpa nem rede de esgoto. Metade das escolas em todo o mundo carece de instalações para lavagem das mãos com água e sabão, afetando 900 milhões crianças em idade escolar. A recuperação econômica pós pandemia não deve retomar a atividade econômica tal como existia anteriormente, alegando a necessidade de evitar desemprego em massa. Para não naufragar, a economia terá de levar em consideração as demandas da sociedade e as prioridades sociais, além de acelerar a transição energética e ecológica. Os países vão evidentemente adotar políticas diferentes, variando entre medidas democráticas e autoritárias, uns retomando o neoliberalismo, outros se aproximando da socialdemocracia ou do capitalismo de Estado. Mas a realidade da vida econômica e política imposta pelo coronavírus vai exigir mudança na relação entre economia e natureza, foco na questão da saúde pública, na “economia da vida”, consideração da crescente interdependência global e decisões responsáveis para enfrentar a emergência climática. Pesquisadores de todo o mundo alertam para a estreita dependência entre saúde e meio ambiente. O desmatamento, por exemplo, além de provocar desequilíbrio ambiental alterando o regime pluviométrico, reduzindo a oferta de água, estimulando secas e inundações, entre outros impactos, libera vírus existentes na floresta. Esses vírus, com o desmatamento, escapam da floresta e são transmitidos a animais domésticos e, direta ou indiretamente, ao próprio homem. Coronavírus de morcegos, por exemplo, foram descobertos na Mata Atlântica, onde o desmatamento voltou a crescer e aumentou 27,2%, segundo dados divulgados no início de junho deste ano. E na Mata Atlântica residem 72% da população brasileira. Toda doença infecciosa nova está ligada a desequilíbrios ambientais, esclarece Edison Durigon, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. E acrescenta: Noventa por cento das doenças emergentes no planeta, como a Covid-19, o Ebola, a Sars, a Mers e a Aids, vêm de animais silvestres que saíram de áreas degradadas. Desmatamento, caça e tráfico de animais silvestres trazem doenças.  Proteger a floresta é uma questão de saúde. (O Globo, 7/6/2020). O Brasil tem 47.897 mortes e 984.315 casos de Covid-19, quase 1 milhão, aponta o levantamento realizado com dados das secretarias estaduais de Saúde, obtidos por um consórcio de veículos de imprensa, e compilados em um boletim fechado às 8h da sexta-feira 19/6. São Paulo e Rio de Janeiro lideram o número de óbitos pela COVID-19. SP é o mais populoso, RJ é o terceiro em número de habitantes. Ambos são atravessados pela Mata Atlântica, hoje dizimada, restam apenas 8,5% da cobertura vegetal original. No Estado de Minas Gerais, segundo mais populoso, a subnotificação é enorme. Aumentou muito o número de óbitos por “insuficiência respiratória” sem menção à morte por coronavirus. Como não há testes, muitos médicos evitam escrever COVID no atestado de óbito. Isso ocorre em todo o país, mas de forma mais acentuada em MG, segundo divulgado na imprensa. Muitos especialistas afirmaram que medidas internacionais visando reduzir a propagação da COVID-19 podem salvar mais vidas devido à redução da poluição do ar e da intensidade das mudanças climáticas do que complicações de saúde causadas pelo vírus. Estima-se que só na China já foi possível salvar mais vidas do que as que foram perdidas pelo vírus até agora. Mudanças no clima já estão causando escassez de comida e água, problemas migratórios e outros desastres naturais, além de aumentar ainda mais o risco de epidemias, sobretudo doenças como malária e dengue. Proteger a natureza e garantir o uso sustentável dos recursos naturais podem ajudar a prevenir a próxima pandemia. A OMS já demonstrou que o meio ambiente é responsável por aproximada- mente um quarto das mortes no mundo. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA calcula que três quartos das doenças novas ou emergentes que infectam os seres humanos, como o ebola, a dengue, o zika ou a febre amarela, se originaram na vida silvestre. A mudança dos ecossistemas pode acentuar as doenças infecciosas pela destruição de florestas tropicais que abrigam inúmeras espécies de animais e também vírus desconhecidos e potencialmente perigosos. Na Amazônia, por exemplo, um aumento no desmatamento ao redor de 4% elevou a incidência da malária em quase 50%, pois os mosquitos transmissores da doença prosperam em áreas recentemente desmatadas. A conexão entre vida silvestre e doenças não é nova. A perda de florestas pelo desmatamento, mineração, estradas, expansão agrícola, rápida urbanização e crescimento demográfico, aproximou a população, às vezes pela primeira vez, de diversas espécies silvestres, provocando o risco de doenças. Por outro lado, as soluções baseadas na natureza e na biodiversidade são importantes para o desenvolvimento de medicamentos para novos tratamentos.